Capítulo 7 – Salvadores de Memórias

Os veículos dos Caçadores pararam na orla da mega cidade devastada. O povo da Nação dos Ipês tinha a informação de que, antes da Chuva dos Mísseis, toda aquela imensidão ruinosa se chamava Nova Piratininga, um conjunto metropolitano de cidades gigantescas da época dos primogênitos. A maior delas era São Paulo, uma cidade que, em determinado ponto da história antiga, era a maior do continente. Daquele lugar, nada havia sobrado. Os sherat’i tinham apenas fragmentos da história dos Primeiros Filhos, trazidos até eles pela memória e registro oral de seus descendentes, apenas supondo qual poderia ter sido o motivo para que os inimigos daquele antigo reino tivessem a necessidade de devastar um lugar com milhões de habitantes. Em determinado ponto, eles contam que os primogênitos passaram a registrar sua história nas nuvens, e o uso de papel diminuiu muito, prejudicando que esse conhecimento chegasse aos dias atuais. Ainda que a Nação tenha conseguido avançar muito em termos de tecnologia, com acesso a energias limpas, uma internet rudimentar e outras máquinas e aparatos digitais, ainda parecia impossível para essa sociedade atual arquivar conhecimentos na atmosfera.

Kaluanã se impressionou. Ele se lembra de Passo Bonito, a grande cidade no seio da região pantaneira, com sua centena de milhares de habitantes, e das complexidades que exigem muito da organização do Palmares Regional de Cambará para deixar tudo nos conformes. Ele não consegue conceber a ideia de uma cidade com um milhão de habitantes, que dirá uma metrópole com vinte e cinco milhões. A imensidão da zona destruída, que ia de um lado a outro do campo de visão e parecia interminável, causava um desânimo prévio nos Caçadores. “Como vamos achar Santa Cova nesse lugar?” , pensou ele, sem ideia de por onde começar.

Sandro deu um um soco na lataria do veículo:

— Como vamos achar Santa Cova nesse inferno? — disse, ecoando de maneira mais violenta os pensamentos do primo.

— Não me admira que os Maltas não tenham conseguido mapear as entradas. Esse lugar é imenso — disse Terena, a capivara’i arqueira. Ela estava equipando sua aljava e regulando seus óculos de visão noturna. O entardecer já havia chegado.

— Eu não acho que devemos entrar aí durante a noite — disse Abaeté, seus longos dedos gesticulando enquanto argumentava — Melhor esperar o amanhecer, talvez nossos inimigos saiam durante o dia. Não vejo nenhuma assinatura de calor.

Kalu esperou se Pedro ou Sandro falariam algo, mas eles não disseram nada. Todos olharam para ele, esperando as ordens.

— Vamos passar a noite aqui. — disse ele, olhando para a cidade arruinada — O caminhão é o lugar mais seguro no momento. Outras equipes devem chegar a partir de amanhã. Antes do amanhecer vamos nos equipar e entrar na cidade. Kaya vai nos cobrir enquanto Zezinho vai procurar em outros locais algum sinal de movimentação. Lembrem que estamos em território inimigo. Os bandeirantes tem armamento antiquado, mas igualmente letal. Terena vai ficar de sentinela durante as próximas horas. Se cansar, nos avise que trocamos, certo? Abaeté, você vai montar os equipamentos de comunicação, quero antenas e radares funcionando, assinaturas de calor e detector de som. Sandro e Pedro vão dormir, vocês tem que estar prontos pra começar as buscas no primeiro sol — concluiu Kaluanã.

— Pode deixar chefe! — respondeu Terena, sabendo que ele odiava ser chamado de chefe.

Pedro, o primogênito, perguntou:

— Qual é o plano quando entrarmos lá?

— Nós não vamos entrar — disse Kalu, sabendo que Sandro o olharia bravo. Ele aumentou a voz para que todos ouvissem — Sei que pessoalmente queremos vingança. Uma força de combate que assassina crianças não merece misericórdia. Mas nós somos apenas cinco por enquanto. Mesmo com nossos reforços, chegaremos a uma centena, no máximo. Nós não temos ideia de quantos eles são, mas pelo terreno que cobrem, sabemos que não são poucos. Nossa função, como Caçadores de Cambará, é empregar todo o nosso treinamento ao longo de décadas rastreando Sinistros e grupos dos Geiger para tentar encontrar as entradas de Santa Cova. Vocês estão vendo o tamanho disso aqui tudo. Nosso trabalho é encontrar os pontos de entrada e então comunicar para o Palmares Central. Com sorte, conseguiremos reunir uma força das cinco regiões para, daí sim, entrar pelos túneis que encontrarmos e pulverizar esse lugar. Então tenham isso em mente. Nosso suicídio não contribuirá com o fim dos nossos inimigos. Entendidos?

— Sim, senhor! — responderam eles. Sandro ficou em silêncio.

Kaluanã se aproximou de seu primo.

— Eu preciso ter certeza que você entendeu e não vai comprometer a missão, Sandro. Eu quero essa vingança tanto quanto você, por Terra, Sangue e Pólvora.

Sandro se virou pra ele e o olhou nos olhos, seu olho mecânico lendo o rosto de Kalu, registrando seus batimentos cardíacos e saturação. Ele estava calmo, mas um pouco agitado. O fato de Kalu ser alguns centímetros mais alto irritava Sandro profundamente.

— Eu sou um profissional, Kalu. Não vou comprometer a missão.

— Eu quero ouvir, soldado. — disse Kaluanã, sem desviar o olhar.

— Sim, senhor! Por Terra, Sangue e Pólvora. — respondeu Sandro, sério.

— Ótimo. Dispensados.

Enquanto todos se preparavam, Kalu ficou acordado. Beto e Arnaldo foram para uma outra barraca separada, fora do caminhão. Eles queriam ficar conversando até tarde, já que, tecnicamente, não faziam parte da missão em si. Para não atrapalhar os jovens, ficaram separados do restante.

Kaluanã estava insone. Ele caminhou pelas imediações, observando a cidade morta sob a luz do luar. Havia muitas nuvens no céu, mas ainda era possível enxergar com o pouco de claridade que passava por elas. Ele subiu em uma parede quebrada, com sua lança como apoio, e ficou ali por um tempo. De cima daquele fragmento do que já foi um dia uma maravilha da arquitetura, observava relevos, calculava distâncias, preparava rotas. Ele temia o que encontrariam ali, tinha medo de que descobririam o tamanho de sua própria fraqueza se encontrassem os Bandeirantes. Talvez eles só não tivessem lançado uma ofensiva ainda maior contra a Nação por terem, ao contrário, uma noção de serem eles os mais fracos. Kaluanã temia que esse encontro revelasse quem destas forças estava correta, preocupado com o resultado. Porém, tinha que lidar com esse medo sozinho. Seus comandados jamais poderiam suspeitar. Era seu dever cumprir a missão e fazer justiça. Mesmo assim, ele temia.

Perto dali, deitado na rede, observando pela janela do caminhão e esperando o sono chegar, Sandro observava seu primo empoleirado em uma construção destruída, apoiado na lança e esfregando o ombro. Ele sempre agia assim quando estava assustado.


No dia seguinte, Mayara foi visitar Manu e Fabi na enfermaria. Se despediu de Julinha cedo, e caminhou até o local onde pessoas feridas iam para contratar serviços de saúde. Era um lugar sujo e escuro, com luzes apenas nos locais mais necessários. Havia cerca de 20 macas separadas por cortinas de plástico, e moscas voavam pelo local. O cheiro de formol e sangue competiam para serem o mais presente, e uma meia dúzia de médicos e enfermeiros circulavam falando com os pacientes. Perto da entrada, um símbolo dos Autocultivadores balançava. Era um local fechado, incrustado em uma cavidade dos túneis perto da estação Madalena. Algumas pessoas ficavam pelos cantos das salas, na expectativa de conseguirem se furar com agulhas e seringas usadas, na esperança de ter algum resquício de anestésicos ou remédios que pudessem dar um barato. A maioria dessas pessoas eram viciados químicos expostos a anos de trabalho em fábricas de remédios, tintas e outras substâncias tóxicas e que, após atingirem um determinado grau de vício e portanto, improdutividade, eram jogadas na rua pelas empresas, ficando apartadas das substâncias que vivenciavam no dia a dia, tendo assim que buscar em outros lugares. Manu estava deitada em uma maca, e conversava com um homem alto e velho. Mayara o achou bonito, apesar das marcas do tempo em seu rosto. Se fosse chutar, diria que tem cerca de trinta e quatro anos, já perto do fim da vida. Ele tinha uma barba bem feita, pele branca e cabelo liso na altura da orelha. Seu cheiro não era muito bom, mas melhor que o esperado. Ele sorria enquanto falava com ela, em contraste com a moça triste. O braço dela estava enfaixado, seu ombro colocado no lugar. Fabi não estava por ali.

Mayara se aproximou, meio tímida, pedindo licença. Manu abriu um sorriso enorme ao vê-la. Seus dentes eram um pouco tortos, mas ela era definitivamente bonita.

— Mayara o que você tá fazendo aqui! Que legal que você veio! Olha, esse é o meu irmão que eu te falei, o nome dele é Gilberto, mas a gente chama ele de Giba! — disse Manu, bastante animada apesar da situação. O homem sorriu e ergueu a mão para Mayara, que o cumprimentou de volta.

— Vim ver vocês, fiquei preocupada depois de ontem. Não encontrei a Fabi por aqui, ela está bem?

Manu ficou com o rosto sombrio.

— Ela foi levada para os removedores. Disseram que não tinham como fazer nada aqui.

Mayara ficou chocada, levando uma mão à boca.​

— Ela vai ter dinheiro pra amputação?

— Não sei — disse Manu, fechando os olhos por causa da dor — Acho que sim, pelo que eu conheço ela, deve ter guardado alguma coisa. Só não sei se vai conseguir pagar uma prótese decente. Ouvi falar que uma que se mexe é bem cara, mesmo que seja Hidráulica que nem a do Barão.

— Barão? — perguntou Mayara, confusa.

— O cara velho — disse Giba, entrando na conversa — que acompanhou a equipe de vocês ontem. É um conhecido meu de longa data. Vou ver com quem ele fez o braço dele, e tentar ajeitar pra Fabi, talvez role um desconto.

— Eu dei foi sorte — ponderou Manu — que o meu braço só fez foi sair do lugar. Se tivesse quebrado, eu tava fudidinha, não ia ter essa grana.

— A gente daria um jeito. — falou Giba, passando a mão na cabeça de sua irmã — mas não vai precisar. Falando em precisar, eu preciso ir embora. Sua estada acaba daqui a três horas. Consegue voltar sozinha?

— Consigo.

Ele se inclinou e deu um beijo no rosto da garota, que apertou seu braço com força. Mayara estava pensando que talvez essa fosse a primeira vez que ela presenciava uma relação familiar, uma troca de carinho e afeto que não fosse pautada pela urgência ou pela necessidade.

— Eu também já vou indo, tenho que entrar na Luminosil. Essa é a minha toca — disse ela, entregando um papel com um endereço — Vamos tentar manter contato, tá bom?

Manu pegou o papel e se despediu. Mayara acompanhou Giba na saída, conversando sobre como foi o acidente, comparando as versões e pensando sobre como tudo poderia ter dado muito mais errado. Ele agradeceu por ela ter salvo sua irmã, e disse que ela poderia contar com ele sempre. Enxergando uma oportunidade, ela aproveitou:

— Sua irmã me falou uma parada que eu não acreditei no começo, mas agora te conhecendo, parece ser bastante verdade. Ela disse que você é um dos Salvadores e..

O homem deu um salto, girando sua cabeça para todos os lados. Haviam soldados da baixa paróquia nas redondezas, mas nenhum muito perto. Os relógios sincronizados indicavam que estava quase na hora da troca de turno, então mais guardas estariam circulando por ali muito em breve. Mayara percebeu que foi descuidada, e estava esperando a bronca dele. Mas ele apenas a advertiu

— Aqui não! — e pegou a mão dela, arrastando Mayara para uma viela. — Me desculpe por isso. — disse, e apertando ela contra a parede, beijou sua boca.

Mayara não estava tão acostumada a beijar homens, mas apesar da surpresa, não foi tão desagradável. Ela percebeu que ele baixou a parte de trás da gola de sua camisa e escreveu alguma coisa em suas costas. Ele se afastou, e ela na hora se lembrou de Julinha e da noite anterior. Era mais comum demonstrações de afeto em público do que pessoas trocando papéis no meio da rua.

— Me encontre neste endereço quando quiser. Foi o jeito menos suspeito que encontrei de te passar essa info. — disse Giba, claramente ruborizado.

— Tudo bem — disse Mayara, um pouco chocada.

— Tenha certeza de não ser seguida. Eu só estou te dando essa chance por gratidão ao que você fez pela Manuela, mas não abuse disso. Agora eu vou fingir que estamos brigando e sair do beco sozinho, tá bom?

— Tá bom. — disse ela, ainda surpresa.

Ele se afastou um pouco e começou a gritar

— Você é maluca garota! Maluca! Eu não tenho nada a ver com isso! Não me procura mais não! — disse Giba, aos berros, saindo pelas calçadas apressado. Ele piscou pra ela antes de se virar.

Mayara ficou por alguns momentos ali no beco e depois caminhou para o trabalho. Em dois dias, muita coisa tinha acontecido.

O que Gilberto não sabia era que Mayara não tinha um espelho. Não tinha onde ela pudesse ver a informação que ele escreveu. A única maneira era pedindo ajuda para Julinha. Depois do trabalho, elas foram para a toca de Mayara de novo. Ela tirou a roupa para Julinha anotar o que estava escrito. “A letra dele é bonita”, disse ela. Obviamente, Mayara teve que contar tudo, senão a garota não iria parar de perguntar. E como era esperado, ela agora queria ir junto. Mayara não queria deixar, disse que era perigoso e disse que não tinha sido autorizada. Mas ela estava sem roupa, e Julinha podia ser bem convincente.

Passadas duas noites, elas foram até o local. Adequaram agendas, trocaram turnos na empresa, e se organizaram para poderem ir juntas. Caminharam por trilhos, calçadas e becos. A passagem pelos lugares era perigosa. O risco de serem atacadas por outros moradores dos túneis era sempre presente. A miséria fazia com que os famintos atacassem e roubassem pessoas um pouco menos famintas do que eles. Mas as duas tinham experiência nos túneis e sabiam os lugares corretos. Seu trajeto incluía passar pelo máximo de estações possíveis, pois eram os lugares mais iluminados e com a maior presença dos soldados da Baixa paróquia, que eram por si só uma ameaça. Se cismassem que alguém estava olhando pra eles do jeito errado, fariam essa pessoa sangrar por horas. Mas a presença deles deixava todos tensos, então os aventureiros deixavam pra agir longe de seus olhares.

Enquanto caminhavam, Mayara e Julinha conversavam sobre diversos assuntos, enquanto passavam pelos túneis. Pichações de protesto ou de assinatura coloriam o concreto, entrecortados pelos inúmeros relógios espalhados pelas paredes. Mais próximo de estações, os pequenos comércios começavam a aparecer. Vendedores de comida e prestadores de serviço de todo tipo se espalhavam por ali, de costureiros a eletricistas, encanadores, pedreiras, além de escoltas, uma das funções mais contratadas por quem tem um pouco mais de condição. As garotas sabiam se defender e estavam armadas com ferramentas por baixo das roupas, mas o risco ainda existia.

Depois de quarenta e dois minutos caminhando, elas chegaram ao local. Olharam para um lado e para o outro, e não viram nada. Era o meio de um túnel. Paredes estavam dos dois lados, um trilho corria pelo meio, e só.

— Tem certeza que é o lugar certo? — perguntou Mayara. Ela só podia confiar nas anotações de Julinha.

— Olha, era o que tava escrito ali. Será que seu galãzinho não te enganou? — provocou Julinha, fazendo uma cara safada.

— Ah, acho que não. Ele pareceu bem sério quando eu perguntei. Alô? Gilberto? — gritou ela.

Um tremor aconteceu na parede, e uma voz que parecia vinda do nada, falou com elas.

— Quem são vocês? Como encontraram esse lugar?

— Gilberto me passou o endereço. Ele disse que eu deveria encontrá-lo aqui.

Elas ouviram uma risadinha vindo de trás da parede, e logo depois uma seção do concreto se moveu. Um homem baixinho, com cabelo amarelo e ralo e olhos claros, dentes grandes e sardas, as recebeu.

— Eu sou o Carlinhos. Deixa eu adivinhar, o safado do Giba te puxou pra um canto pra te passar o endereço, certo?

Elas se olharam, Mayara com o rosto desconfiado, Julinha segurando o riso. “Por aqui”, disse o homem.

A parede foi fechada e barras de metal passaram por trás da abertura. Eles caminharam por oito minutos e vinte e dois segundos, passando por outras grades, virando esquinas sem fim por um aparente labirinto interminável, desviando de armadilhas, até entrar por uma abertura escondida por panos e lonas em um grande saguão.

As meninas não puderam segurar sua surpresa ao verem aquele lugar. Por todas as paredes, estantes cheias de livros se espalhavam, além de outros objetos que claramente existiam há muitos anos. “Objetos da superfície” pensou Mayara. Ela nem esperou e começou a mexer nas revistas e livros que estavam mais perto. Mesmo que soubesse ler, várias daquelas palavras não significavam nada para ela. Termos como Biologia, Computação ou Semiótica, podiam ser vistos em placas que categorizavam seções da imensa biblioteca. Julinha parecia mais atraída pelos apetrechos e quinquilharias dispostas sobre mesas. Uma bola azul que girava em seu eixo, pontilhado por formas coloridas, fez seus olhos brilharem. Ela ficou ali, girando e tentando ler os nomes que apareciam, curiosa.

Várias pessoas estavam por ali. Suas roupas eram diferentes do comum dos túneis, usando vários tons de roupa terrosos e avermelhados. Todos pareciam concentrados, e conversavam muito pouco, lendo ou observando e catalogando objetos. Aquele era de longe o mais amplo, organizado e limpo lugar que Mayara já havia colocado os pés.

— Bem vindas! — disse Gilberto do andar de cima, descendo por uma escada de madeira que elas nem tinham visto que estava ali. Estava com a mesma roupa do outro dia, uma jaqueta avermelhada sobre uma camiseta marrom e calças escuras. Só agora Mayara percebeu as cores. — Vocês estão em um dos vários esconderijos dos Salvadores de Memórias. Quem é sua amiga, Mayara?

Seu tom de voz deixava uma dúvida sobre estar irritado ou curioso.

— Oi, eu sou a Julia! Você escreveu nela mas ela não tem espelho, então eu tive que ajudar! Sua letra é bonita! O que é essa bola?

O homem ficou atônito com a velocidade com que ela falava, mais rápido que sua irmã, o que até então lhe parecia impossível. Mas ele gostou do brilho no olhar que ela demonstrava ao falar dos objetos.

— Ah, isto é chamado de globo terrestre. A parte azul é o oceano, água, e as partes marrons e verdes são os continentes, a terra. Os antigos moradores do mundo costumavam usar essas bolas para se localizar. Achamos alguns livros que indicam que estamos em algum lugar dessa região aqui — disse, apontando para uma massa marrom que representava a América Latina. — Não sabemos exatamente onde, porque aparentemente esse globo só representa continentes, então não temos como saber onde ficava o que um dia foi o país dos nossos antepassados. E os materiais que temos são de épocas diferentes, então a região onde supostamente estamos também teve uma série de nomes. O mais comum que encontramos aí é chamado de Brasil, aparentemente fazendo referência ao fogo. Houve uma época em que muitos bandidos colocavam fogo nas florestas de maneira criminosa, isso parece ter inspirado o nome do país. Se era uma sátira ou uma crítica, não sei dizer.

Julinha parecia encantada, boquiaberta. Mayara ergueu uma sombrancelha.

— O que é um país? — perguntou Mayara, tentando chamar a atenção.

— Bom, pelo que eu entendo, era uma forma de chamar um pedaço muito grande de terra. — disse giba, olhando pra cima, buscando as melhores palavras para explicar. — eu não sou muito inteligente, meu negócio é ir para a superfície e encontrar coisas. Quem estuda e cataloga faz parte de outro grupo dos salvadores, os bibliotecários. Eu sou um explorador. Mas é como, digamos, aqui nos túneis, nós nos separamos por regiões de estação. Várias regiões formam um subterrâneo. Subterrâneo e superfície formavam bairros, bairros formavam cidades, cidades formavam metrópoles e metrópoles formavam países, e países formavam continentes, entende? São nomes para indicar o tamanho dos lugares. Pelo menos é o que eu entendi.

— É quase isso — interrompeu uma mulher com as roupas parecidas com a de gilberto. Ela era bonita e mais velha que as garotas, sua pele cor de bronze aparecendo sob a vestimenta, seu cabelo avermelhado e cacheado ondulando atrás dela enquanto caminhava — mas não temos tempo pra isso agora. Estão te esperando lá atrás Gilberto, não é hora de receber visitas. Com todo respeito, meninas.

— Está tudo bem — disse Mayara, de modo sério — mas nosso amigo Giba aqui nos fez vir lá de perto da Luminosil e ainda não explicou o que estamos fazendo aqui, e eu gostaria de uma resposta.

As três mulheres cruzaram os braços, esperando uma resposta de Gilberto.

— Ah, é simples. Manu me contou tudo que Mayara fez e acho que ela poderia ajudar bastante na exploração. Ela é forte, experiente e tem espírito de equipe, se arriscou pra salvar minha irmã. Acho que ela, se quiser, poderia ser uma ótima adição pra nós. A Julia eu conheci agora, mas deu pra ver que interesse e curiosidade ela tem. Então vocês estão convidadas para o grupo de exploradores dos Salvadores de Memórias.

Mayara e Julia se olharam sorrindo. Ambas sempre tiveram muita vontade de conhecer mais do mundo da superfície e poder olhar com mais calma para as ruínas, com muito mais tempo do que elas tinham nas subidas de manutenção.

A mulher de cabelos vermelhos pareceu não gostar muito da ideia.

— Você nem conhece direito essas garotas Giba. Uma delas você nem tinha visto antes. Você não pode ficar trazendo pessoas pra cá que não sejam de confiança. Se a Igreja descobre o nosso esconderijo estamos todos mortos. Você sabe que o que fazemos é ilegal. Você tinha que no mínimo ter nos perguntado antes, e depois tinha que ter feito todo o processo de recrutamento, tomando todos os cuidados. Sério cara, eu não tô acreditando.

— Raquel, escuta, eu não conheço elas o suficiente. Mas uma delas arriscou a vida pra salvar a minha irmã, que ela própria não conhecia há mais que duas horas. A gente está falando dos túneis, onde as pessoas se matam por um pedaço de pão. Sério mesmo que uma pessoa que arrisca a vida por uma semi-desconhecida não merece confiança? Nós precisamos de sangue novo. E a Julia é alguém que, essa pessoa de confiança, confiou, com o perdão da redundância, para ler o que eu escrevi e pra trazer até aqui. Me desculpa, mas nem tudo é protocolo.

— Porra, Giba! — disse Raquel, enfurecida — pra que que a gente fez a porra de um protocolo então, hein tio? Mano, isso não pode acontecer mais. Nunca mais, tá me ouvindo?

— Se me der licença — interrompeu Mayara, envergonhada — eu e a Julia sempre quisemos explorar mais da superfície. Nós nos inscrevemos na equipe de manutenção de geradores principalmente pra poder ver mais do Mundo Morto durante as subidas. Aquele curto espaço de tempo que passamos lá em cima é muito mágico, e queremos poder explorar e conhecer mais sobre o mundo de lá. Por favor, nos leve junto!

Ao lado dela, Julia fazia uma cara de quem estava pedindo por favor, mordendo os dedões e balançando de um lado pro outro, ansiosa. Gilberto parecia hipnotizado pela garota. Raquel ergueu um dedo para falar com elas.

— Vocês vão passar pela instrução mas precisam saber algumas coisas. Um: você não entra em lugares que um superior não te autorizar a entrar. Prédios desabam com facilidade e alguns deles são lugares muito perigosos. Dois: a chance de morrer lá em cima é alta. Não fique para trás. Três: se ficar para trás e for pega pela Igreja, não dedure seus irmãos de ordem, não importa o que façam. Quarto e último: se ouvir uma respiração muito forte vindo das ruínas, você corre, o mais rápido que puder. Entendido?

— Respiração? — perguntou Julia.

— Entendido!?

“Entendido!” responderam elas, em uníssono. Elas foram então levadas cada vez mais para dentro na galeria dos Salvadores, onde receberiam roupas, equipamentos e seriam orientadas para suas primeiras subidas. Fosse na empresa ou na região onde moravam, ninguém sentiria falta delas. Ninguém sentia falta de ninguém em Santa Cova.

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