No outro dia, Mayara se dirigiu até o posto de controle, sonolenta. Dormiu muito pouco devido a adrenalina do turno anterior, sendo acordada pelas lembranças da surra que testemunhou e pela ansiedade da subida até o Mundo Morto. Precisava dormir, pois subir nos geradores com sono poderia ser fatal. Mas quanto mais ela pensava que precisava pegar no sono, menos ela conseguia. Ela já havia subido duas vezes, sempre num horário específico conhecido como “noite”.
Ela sabia que no passado, conceitos de “dia” e “noite” eram comuns, dividindo as horas em momentos de escuridão e momentos onde uma luz conhecida como ‘natural’ brilhava do teto do mundo, algo que para ela parecia impensável. Pelo que sabia, essa lâmpada que iluminava o mundo explodiu durante a época da Grande Morte, e por isso sempre que eles subiam, estava escuro. Ela não entendia então porque eles só subiam nesse período de noite, mas os padres diziam que era para não cometer nenhum tipo de pecado. “Que pecado?” ela perguntava, e eles só balançavam a cabeça. Outros diziam que a doença que matou o mundo se espalhava menos no período noturno, e alguns até de que no período do dia eles poderiam acabar encontrando os homens-fera, portanto era perigoso.
Homens-fera era como as pessoas de Santa Cova conheciam os Sherat’i, ignorantes sobre sua origem, sua história e costumes. A maioria das pessoas de lá passaria a vida sem encontrar nenhum Sherat’i, ouvindo sobre eles apenas boatos e sussurros, que eram resultado de um castigo divino colocado sobre todos aqueles que ousaram subir para o mundo morto sem a permissão da Igreja.
Mayara só acreditava no que via, desconfiando de qualquer história que contassem sem comprovações. Ela tinha uma mente empírica, prática. Para ela, subir até a superfície era um momento onde ela podia encontrar o silêncio, respirar um ar diferente, mesmo que através da máscara. Ela gostava de ver as ruínas. Era triste porque eram escombros de um mundo que não existia mais, mas que mesmo assim denotava a capacidade humana de produzir grandes feitos. Era bonito.
Ela chegou ao posto de controle, que nada mais era que um cômodo de concreto com duas pessoas trabalhando. Eles usavam roupas simples com coletes amarelos de algum material sintético onde era possível ver o símbolo da igreja. Cumprimentaram brevemente, e ela apresentou sua identificação, pegou sua roupa especial, suas ferramentas e subiu na carriola, um retângulo de metal com rodas usado apenas pelos membros da Igreja. A viagem levou muito tempo pelos trilhos antigos. Ao redor dela, os outros seis trabalhadores se dividiam entre pessoas nervosas e aqueles que estavam como ela, empolgados com a visão do Mundo Morto. Dois eram homens velhos, já muito perto da morte, provavelmente com seus trinta e cinco ou trinta e seis anos, com o rosto cansado e olhar sonolento. Um deles tinha um braço mecânico com movimentação hidráulica, que claramente estava em mau estado. Ela já tinha subido com eles numa outra vez. Os outros quatro eram pessoas mais novas, duas moças e um rapaz jovem, e a quarta pessoa não tinha gênero definido. Estavam muito mais nervosos que os homens velhos, e cochichavam entre si a todo momento. Vendo os jovens conversando, Mayara sentiu falta de Julinha. Elas se conheciam há dois anos, desde que começaram a trabalhar juntas na Luminosil. Na época estavam no mesmo turno, o que possibilitava que pudessem sair juntas e aproveitar o parco tempo que lhes sobrava para fazer algumas coisas, mas logo as escalas da empresa mudaram, elas foram para horários diferentes e hoje em dia era muito difícil que se encontrassem. Mayara sentia falta desse tempo.
Muitos ali sentiam quase um alívio ao ver que existia uma parte do mundo que estava pior do que Santa Cova, uma falsa sensação de que suas vidas talvez não estivessem tão ruins assim. Para o governo da Igreja, era importante que mais pessoas vissem as ruínas do mundo caído para que dissessem aos outros que sim, a Igreja estava certa, e que se eles não obedecessem, os túneis ficariam assim como a superfície.
O trajeto demorou bem mais que das outras vezes, indo com a carriola muito mais longe da parte central do que de costume. Passou por duas estações com nomes que não significavam nada para ela, mas que a deixaram curiosa para conhecer, se um dia tivesse tempo.
Na estação Mal. Deodoro, havia um tipo de atividade diferente do que ela estava acostumada a ver, com pessoas praticando exercícios e se encontrando no saguão. Ela não conseguia entender como algumas pessoas tinham tempo para fazer esforço físico por vontade própria. Em seu tempo livre, Mayara só queria descansar. Parecia ter algumas plantas sobrevivendo no interior da estação, com uma iluminação entrando por vidraças grandes no teto. Ela não sabia de onde vinha aquela luz. Ela também não tinha muita certeza de como as plantas funcionavam, mas elas estavam ali há bastante tempo, desde quando ela passava por ali no início de seu trabalho na Luminosil. Aquela estação tinha um tipo de vida mais aberta e colorida, com sons, músicas e vendedores. Ela não sabia o que esse tal Deodoro havia feito para ser considerado um homem do mal, mas ela tinha a impressão de que as pessoas viviam mais felizes ali do que na sua vizinhança. Os soldados da Baixa Paróquia podiam ser vistos pelos cantos, observando, mas sem interferir.
Numa outra estação, de nome Liberdade, ela viu pessoas conversando e trocando informações. Pareciam sussurrar entre si. Música e comércio também aconteciam ali, mas os soldados, dessa vez, caminhavam entre as pessoas, com cassetetes em mãos. A hostilidade era palpável naquele lugar. Várias pessoas tinham modificações corporais, implantes cibernéticos e membros mecânicos.
As estações eram os principais centros comerciais e culturais de Santa Cova. No passado, havia um controle muito mais rígido sobre esses espaços, mas a Igreja percebeu que as pessoas produziam mais quando vivenciavam ao menos uma aparência de liberdade. Assim, as estações passaram a ser os lugares onde as pessoas podiam experimentar essa sensação. Era dali que vinham as músicas sussurradas que Mayara achava reconhecer, embora jamais tivesse assistido a uma banda — ela morava longe de qualquer estação e fazia o trajeto até a fábrica a pé. Pinturas e grafites com frases de efeito e cores chamativas se espalhavam pelas paredes. Algumas eram apenas nomes, outras traziam desenhos, monstros, formas, imagens que as pessoas encontravam em papéis ancestrais de antes da queda do mundo. Nomes de gangues e facções, nomes de pessoas ou até mesmo o próprio nome da estação eram comuns. Mesmo a mais simples pichação servia para mostrar que ali alguém esteve vivo e teve a vontade de se expressar, de deixar sua marca contra o concreto frio e áspero dos túneis, um manifesto contra a estagnação. Nunca sobrava tempo para Mayara visitar esses lugares, por isso, passar por uma estação a bordo da carriola era mais um dos motivos que a fazia amar suas subidas até a superfície.
Chegando ao local da subida, desembarcaram da carriola e esperaram a condução do guia. Ele desceu e disse “por aqui”, levando os trabalhadores pelo caminho.
— Primeira vez aqui, tia? — disse uma das jovens que estava no grupo, de aparência alegre e olhar injetado. — Nunca te vi.
Ela tinha o cabelo comprido e amarelo, amarrado em uma longa trança. Suas roupas eram de trabalho, como todos os outros, mas ela se expressava pela maquiagem meio borrada e brincos coloridos. Seu nariz era fino, seu olhar rápido parecia registrar tudo ao seu redor, decorando detalhes e identificando padrões.
— Não, já fui algumas vezes, meu nome é Mayara, e vocês?
— Eu sou a Manu, essa aqui é a Fabi — disse ela, sorridente, apontando para a outra garota. Ela era negra como Mayara, mas seu cabelo era curto e usava grandes brincos de argola dourada. Ela usava uma maquiagem com tons de branco e dourado, e apenas acenou com a mão quando Manu a apresentou.
— Prazer, espero que tudo dê certo hoje — disse Mayara, esfregando uma mão na outra e mexendo os pés nervosamente enquanto todos ali esperavam o guia concluir a papelada. Os outros membros do grupo de trabalhadores não falaram nada. Vieram para fazer o trabalho e voltariam para casa, com o valor do serviço no bolso.
— Ai, eu estou tão empolgada né Fabi! — disse Manu, dando pequenos pulinhos e tapinhas no ombro da amiga, que apenas sorriu — Eu sempre me candidatava mas nunca me chamavam! Já pensou se a gente consegue alguma relíquia do Mundo Morto, ou se acendem o Sol quando a gente estiver lá fora? Já pensou? Aai!
Mayara levantou uma sobrancelha, estranhando a conversa.
— Até onde eu sei o Sol não existe mais. Parece que explodiram ele na época da Guerra.
— Não, isso é mentira da Igreja, meu irmão me disse. — Manu então diminui o tom de voz para um sussurro — Ele tem um amigo que é um Salvador, e esse cara disse que não tem como explodir o Sol porque ele tá fora do planeta!
Mayara riu baixinho. Ela sempre ouviu falar nos Salvadores de Memórias mas nunca encontrou nenhum, sabendo que eles são, como a maioria das supostas facções, apenas boatos contados para gerar cochichos. Mas ela viu que Manu não riu com ela, olhando séria para seu rosto.
— Ai, desculpa Manu, é que você me pegou desprevenida. Eu não consigo nem imaginar que possa existir alguma coisa fora do planeta. Só de ter uma superfície pra mim já é meio loucura. — disse Mayara, tentando acertar o tom com Manuela.
Mas a garota não parecia ofendida.
— Então tem muita coisa que você não sabe sobre o mundo. Pra onde você acha que os Escolhidos fugiram na época da Guerra? — disse Manu, com bastante certeza. Fabi concordava.
— Pra esse Sol? — disse Mayara, com um sorriso no rosto.
— Silêncio! Ratos! Em fila para receber o equipamento! — gritou o guia. No balcão, estavam mochilas recheadas com apetrechos e aparatos para o trabalho de manutenção. Mayara ficou curiosa com a conversa, mas o tempo para conhecer pessoas acabou.
Cada um dos trabalhadores pegou seu kit e vestiu. Por cima das suas vestes habituais de trabalho, usavam um macacão que cobria o corpo inteiro, um cinto com várias chaves e outras ferramentas como fios, cola, fitas adesivas, cordas e uma série de pequenas peças de eletroeletrônica, como fusíveis, eletrodos e bobinas.
Em fila, eles começaram a subir uma longa escada de metal.
Longe dali, muito muito longe, um portão gigantesco rangia, parecendo ele próprio um animal metálico fazendo força para ser aberto. Se você perguntasse para um de seus guardas, ele lhe diria que esse portão tinha a espessura de uma pessoa comum deitada. Mas o homem que se punha em frente a ele agora tinha conhecimento de um conjunto de teorias de medição da realidade conhecido como Sistema Métrico, e sabia que a espessura correta era de três metros. O próprio portão era por si só, uma fortaleza.
Trazia em seu centro uma figura especialmente pintada, para delimitar as zonas de existência dentro dos túneis. Um triângulo-retângulo de cor preta acima, outro de cor vermelha abaixo, cortada por uma faixa branca quebrava a sobriedade do concreto dos túneis, mas diferente dos grafites, esta quebra colorida apresentava uma ameaça, um alerta. Quatro machados dourados se cruzavam acima e abaixo da forma que ia ao centro, um hexágono também dourado cortado ao meio, com suas metades puxadas para a lateral, a caminho de se separarem. Era uma figura que, em si, não significava nada para as pessoas do subterrâneo. Mas seu significado atual era claro, uma mensagem simples e objetiva: do portão para fora, viviam as pessoas que eram indignas, imperfeitas, destinadas a servir e sobreviver, porque seus pecados se acumulavam ao longo da história. Elas ousaram resistir, ousaram questionar, e no momento de fraqueza, se renderam a suas próprias vontades, esquecendo de si no processo.
Do portão para dentro, ficava o paraíso.
E quase ninguém tinha direito de transitar entre a lama e o paraíso. Este homem, parado em frente ao massivo portão, que se abria lentamente com seu barulho ensurdecedor e cheiro de óleo e fuligem, era uma das raras exceções.
Lúcio Tavares era forte e alto, mais alto que todos os seus comandados. Ele era O Diácono.
Dentro da Hierarquia, apenas a Papisa estava acima dele. Ele comandava todo o corpo de soldados e burocratas do Diaconato da Correção, sendo seu líder supremo, além de comandar todo o corpo da Baixa-Paróquia, responsável pela propaganda e vigilância dos túneis, e também liderava as operações dos Bandeirantes.
Tavares sabia que acumulava funções demais. Ele trabalhou nas sombras para que fosse assim. Dessa forma, poderia fazer as coisas do seu jeito, e se tornando tão indispensável, as chances de ser traído diminuíriam drasticamente, pois sua queda levaria diversas partes da Igreja para o buraco consigo.
Mesmo assim, ele estava sempre atento. Ele sempre virava esquinas com cuidado, olhando primeiro antes de entrar em novos corredores. Ele sempre usava proteção de Kevlar por baixo de suas vestes do Diaconato, protegendo partes vitais e servindo como reforço para combate corporal. Carregava consigo diversas armas de fogo, inúmeras balas e facas. Seu rosto estava sempre com o cenho franzido, sua voz estava sempre carregada com ódio, mas nunca veriam sua expressão. Ele escondia seu rosto sob uma máscara branca, incólume e lisa, com respiradores e visor de calor. Ele nunca se olhava no espelho. Ele abominava seu corpo, odiava ser como era, e havia prometido a si mesmo que um dia, conseguiria ter outro corpo, outra forma. Cada passo que ele dava era em direção a essa transformação, cada missão que cumpria, cada pessoa que matava, cada abominação que sequestrava. Tudo convergia para seu segundo e verdadeiro nascimento.
Subindo pelos corredores subterrâneos em zigue-zague da fortaleza fronteiriça, Tavares era cumprimentado e reverenciado por seus subordinados ao longo do caminho. Ele subia com firmeza no passo e crueldade no coração. Mas quando cruzava o Limiar, a separação interna do paraíso, semelhante ao grande portão pelo qual entrou e via a paisagem interna, era inevitável pensar que aquele lugar era realmente especial. Ele não era o tipo de pessoa contemplativa, mas não podia deixar de notar a beleza do lugar.
O Domo do Éden era um lugar arborizado, com largas avenidas, prédios brilhantes e pessoas felizes. Acima do local, um gigantesco domo de vidro cobria todo o lugar. Pelos parques e campos, era possível ver crianças correndo, animais de estimação, balões. Sorrisos brancos e brilhantes, roupas limpas e cheirosas, o sol brilhando sobre peles claras e canteiros de flores. Mas pelos cantos, Tavares via o produto de seu trabalho.
Em barraquinhas, em quiosques, padarias e equipes de limpeza, estavam os seres que Tavares e os bandeirantes trabalhavam duro para capturar. Sherat’i, de todos os tipos e espécies se espalhavam pela cidade, servindo aos seus senhores humanos, os únicos a trabalhar dentro do Domo. Escravos, todos eles. Alguns acompanhavam as famílias humanas, segurando bolsas, empurrando carrinhos, até brincando com as crianças. Sorriam sorrisos tímidos, balançando caudas e abaixando orelhas. Submissos, controlados, possuídos.
Ele jamais aceitaria isso, jamais se tornaria um animal de estimação dos primogênitos. Sabia que era especial, que era superior, e por isso não se sujeitava. Seu papel era outro. Tavares construiu sua posição na Hierarquia pisoteando corpos e mais corpos de Sherat’i e humanos fracos ou covardes, construindo junto de si uma verdadeira indústria de obtenção de filhotes. Colecionava favores, se aproveitava de afetos e confianças, e não hesitava em findar existências. Odiava ser um deles, mas havia decidido que jamais seria como eles.
Ao passar pela rua, as pessoas o olhavam com um misto de medo e admiração. As crianças humanas acenavam, os meninos impressionados com seu porte físico e suas armas. Os Sherat’i não. Tavares olhava cada um deles, esperando que algum daqueles malditos tivesse coragem de encará-lo de volta. Era um desafio. Mas eles baixavam o olhar, viravam-se e o ignoravam. Ele não ficava feliz com essa atitude, mas se sentia satisfeito. Eles sabiam seus lugares, e o Diácono sabia o seu.
Caminhou até uma estrutura conhecida como Casa Bandeirista, que funcionava como uma espécie de quartel general dos bandeirantes. Ninguém o parou ou pediu identificação. Ele entrou, pegou um elevador e desceu sete andares, saindo em um corredor escuro e frio. Uma amostra de Santa Cova no coração do Domo do Éden. Ao entrar, sons de eletricidade e gritos podiam ser ouvidos. Celas vazias se intercalavam com celas ocupadas por crianças Sherat’i desnutridas e machucadas. Algumas tinham o olhar vazio, outras apenas choravam. Um pequeno onça’i falava baixinho, suplicando por sua família. Tavares teve flashes de sua infância, uma rua ensolarada, seus pais se abraçando, um amigo antigo com quem jogava bola. Cada lembrança dessas doía em sua cabeça como uma facada. Ele então chuta a grade da cela dessa criança, com um grito ensurdecedor, “CALE A BOCA!”, e o menino passa apenas a soluçar, em choque pelo susto.
Com o pé doendo, ele entra na sala de cirurgia. Um Sherat’i boi’i jazia morto na mesa, uma criança de cerca de dez anos. Um médico envelhecido, de cabelos brancos, limpava suas ferramentas em uma pia próxima, enquanto dois assistentes olhavam para Tavares, apavorados. Ele apenas fez um movimento de cabeça e ambos saíram correndo. Sem olhar pra ele, o médico mais velho lhe perguntou:
— Achei que você viria acompanhado. Estamos com poucas cobaias.
Com dor nas costas e querendo sentar, o Diácono apenas caminhou pela sala, observando o cadáver com atenção, tocando seu pescoço. Ainda estava quente.
— Tivemos imprevistos. Uma corja de fanáticos da falsa fé trombou com nosso acampamento e acabamos tendo problemas. Os soldados foram orientados e eliminar os espécimes, pois não teria como trazê-los sem alertar as abominações.
O médico se aproximou e colocou uma mão no ombro do grande inquisidor, num gesto raro de carinho.
— Parece que tem algo te incomodando. Você não costuma ser tão rígido.
— Isso não é verdade — diz Tavares, retirando a mão do médico de si — Enviamos outro grupo para fazer a extração dos Bandeirantes e não os encontramos lá. Seus corpos foram levados e a área estava organizada. Os cadáveres dos escravos também haviam sumido. Isso não deveria acontecer. Quando combatemos os Maltas e os Crias, os corpos não somem. Aquela região não deveria ser tão organizada.
— Não? Me lembro de quando você chegou, pequeno e magro, dizendo que os caçadores iriam nos encontrar e nos matar.
Outra facada na mente de Tavares.
— Mas se não sabemos o que aconteceu, o procedimento que nos resta é investigar e remediar. Você não deveria se preocupar tanto. — completou o médico.
— Não é tão simples. Os Jacarandanos aprenderam a nos enfrentar em campo, mas continuamos conseguindo nos infiltrar em suas cidades e eles continuam sem conseguir nos encontrar. Se as outras regiões da superfície tiverem forças para nos enfrentar, nossa posição pode acabar sendo descoberta. É perigoso. Talvez a solução seja diminuir a demanda por novos escravos. — disse Tavares, com preocupação na voz, demonstrando uma fragilidade que ele só se permitia ter na presença do médico.
— Isso não vai acontecer, você sabe, não é?
— Eu sei — disse Tavares, suspirando — eu sei, pai.


