Um peso se estendeu sobre toda a cidade de Passo Bonito. A notícia se
espalhou como rastro de pólvora. As famílias que tiveram seus entes queridos encontrados ficaram furiosas com a demora do Palmares Regional em tomar uma atitude. Revoltados, enterraram seus filhos e filhas, entre choros e protestos para que ninguém mais tivesse que passar por aquela situação. Pior do que um ataque dos Geiger, que deixava atrás de si mortos os defensores da terra, era a incerteza e a dúvida plantada no coração das pessoas após a atividade dos Bandeirantes. O povo pedia respostas, e resolveu construí-las ele mesmo diante da demora e da passividade do Palmares regional.
Kaluanã acompanhou os ritos. Ele caminhou com a procissão até o Jardim da Memória, um local destinado a relembrar os caídos e os que partiram. Ele acompanhou o povo, ouvindo seus lamentos, seus esbravejamentos e suas canções. A caminhada foi longa, lenta e triste.
O Jardim da Recordação havia sido criado na época das Guerras de Unificação. Os mártires da luta foram enterrados ao lado dos civis. Para cada túmulo no chão, um ipê era plantado, criando uma floresta silenciosa e duradoura. Mas naquele dia, a visão não era solene, nem bonita ou pacífica. Não estavam sendo plantados na terra aqueles que deram seu sangue e suor pelo futuro. Não, aquelas eram covas que não precisariam existir, se eles, os Caçadores, tivessem lidado com o problema mais cedo. Se tivessem confiado mais nos dados, se tivessem pressionado o Palmares, se tivessem enfrentado Paulo e sua passividade.
Elas eram pequenas demais, as covas. Era inaceitável.
Kalu ficou até o final. Ele não se permitiu o descanso. Ele ficou lá até que a
última pessoa do povo se despedisse de sua criança e fosse embora. Ele não tinha o direito de desviar o olhar e nem de se poupar.
No entardecer dourado de Passo Bonito, restavam Kalu, Terena, Pedro, e
outros tantos caçadores, observando em silêncio as novas mudas de árvores plantadas na terra. O cheiro do barro remexido e a brisa do fim da tarde se espalhavam entre eles. Kaluanã se adiantou, com sua lança na mão, e virou-se para seus companheiros. Dezenas de caçadores esperavam. Estavam com o coração aquebrantado. Não podiam deixar de sentir culpa. Eram pessoas do povo tanto quanto aqueles que enterraram seus filhos e sobrinhos naquela tarde. Alguns ali perderam familiares. Eles esperavam que o seu líder pudesse confortá-los com algum discurso, alguma promessa de vingança ou algum plano de ação.
Kalu não falou nada. Ele olhou nos olhos de cada um, de cada caçador, de
cada atiradora. Ele pegou sua lança, e cravou-a no chão, perto da linha das novas árvores plantadas. Retirou ela devagar, fez um pequeno corte em seu indicador, limpou a lâmina, tirando o barro com as mãos e espalhou a terra e o sangue sobre seus braços e rosto. Guardou a lança no estojo, retraindo-a com um clique, puxou sua pistola e deu um tiro no mesmo lugar onde tinha cravado sua lança.
Quando terminou, seus companheiros fizeram o mesmo. Lanças, facões, terçados e facas foram cravados no chão, cada um se ajoelhando devagar e tomando seu próprio tempo para concluir o rito. Barro e sangue foram espalhados por braços e rostos, e tiros de pistola e fuzil foram ouvidos pela planície.
Eles partiram dali ainda em silêncio, o laranja do céu dando lugar à escuridão e ao brilho das estrelas. Naquele dia, um compromisso foi assumido por todo o Décimo Primeiro Pelotão.
Eles não seriam mais apenas Caçadores de Sinistros. As ameaças haviam
mudado, então eles também mudariam.
Nascia, naquele dia, o Corpo de Caçadores de Cambará.
Sandro foi proibido de pisar no Palmares por um ano. Ele não se importava,
não gostava mesmo do ambiente e toda vez que ele via Paulo, o presidente atual da mesa da assembleia palmarina, tinha vontade de esganá-lo. Ele tentava afogar a raiva em um bar na esquina de sua casa. Pessoas jogavam sinuca e truco por ali, música escapava do rádio e crianças brincavam na rua, jogando bola, aproveitando o vento fresco da noite. Ver aquela cena e saber que as crianças que ele encontrou nunca mais poderiam brincar de nada fazia seu coração doer.
Enquanto pensava e bebia, ele vê Kaluanã se aproximando, a pé. Ele chega, entra no bar, vai até o balcão e pede um copo para o dono. Depois vai até a mesa onde Sandro estava, puxa uma cadeira de metal com pontos de ferrugem, e se senta.
— Quem te falou que eu tava aqui? – perguntou Sandro, encarando o copo,
sem olhar para Kalu. As bolhas da cerveja foram se desfazendo aos poucos.
— Ninguém. Foi só intuição. – disse Kalu, se servindo da cerveja. A garrafa
se esvaziou antes da metade do copo – Desce outra pra gente, príncipe! – pediu ele ao dono do bar.
Sandro ficou em silêncio, observando enquanto o dono trazia a bebida. Kalu rescendia a terra, sangue e pólvora.
— Vai fazer o que comigo Kalu? Vai me tirar do pelotão? Pode tirar, eu entro em outro. Ou vai ser só um otário e me encher o saco? Ei! Para de me olhar assim!
Kaluanã observava seu primo. Se lembrava das muitas brigas que tiveram e das aventuras que passaram juntos na infância. Sandro sempre foi mais forte do que ele, mas com o tempo e com treino, Kalu foi ficando mais esperto, até que chegou um ponto em que Sandro nunca mais venceu uma briga.
— Você está irritado, primo. Eu só vim ver se você está bem, e se precisa de
alguma coisa.
— Preciso — disse Sandro, colocando mais cerveja no copo — preciso
encontrar todos estes merdas e mandá-los pra debaixo da terra. Meu coração quase parou quando eu vi aquela barraca. — disse, bebendo um longo gole e ficando em silêncio. Kalu apenas observava. — Se eu tivesse sido mais rápido, ou se eu tivesse me ligado logo no que estava acontecendo, pelo menos alguns estariam vivos. O filho da Marcinha estava vivo ainda quando eu cheguei. — Lágrimas escorriam de seu olho direito. Seu olho esquerdo mecânico estava desligado — Eu cheguei e ouvi eles darem quatro tiros. Um. Dois. Três. Quatro. Eu não entendi na hora, essa porra dessas armas velhas deles tem um som diferente, eu achei que era madeira quebrando ou alguma outra coisa estalando no fogo…
— Não foi culpa sua, Sandro – disse Kalu, colocando a mão no ombro de seu
primo.
— Eu sei que não, mas.. Ao mesmo tempo eu sinto que foi. – disse ele,
tirando devagar a mão de Kaluanã de si.
— Escute — disse Kalu — A Luana conseguiu reunir algumas informações.
Os grupos estão se organizando pra reforçar a patrulha e alguns vão começar a investigar na direção de Jacarandá. Os Crias e os Maltas já estão avisados e vão colaborar. Na semana que vem nós-
— Semana que vem?! — disse Sandro, exasperado. As pessoas do bar olharam para os dois. — Não temos tempo, Kalu! Porra! Eles começaram a chegar cada vez mais perto e vão ficar cada vez mais ousados! Eu já soube que tem comerciantes conversando com viajantes de roupa estranha, eles estão começando a entrar na comunidade, vão começar a se disfarçar, e Passo Bonito vai cair se a gente não fizer nada!
— Sandro, me escuta. Me escuta! Eu ia dizer que semana que vem os
perímetros estarão mapeados, e a gente vai ter mais informações. Até lá estaremos rodando e procurando por nós mesmos. Partimos amanhã. Eu só ia te convidar pra vir junto, eu sei que você vai querer-
— Claro que vou!
— Então é isso! Era isso que eu ia dizer! — disse Kalu, quase tão exasperado quanto seu primo agora — Eu sei que você quer resolver isso, e sei que tem a ver com aquela história do seu amigo-
— Nada a ver..
— Tem, tem sim! E a gente vai resolver. Mas não adianta deslocar todo
mundo sem a gente saber pra onde tá indo. Isso só ia deixar o povo em perigo. Você não acha?
Sandro se acalmou. Já estava tonto, a bebida agindo. Fez que sim com a
cabeça, e permaneceu quieto. Eles terminaram aquela garrafa, Kalu pediu para o dono anotar no caderninho e eles foram para casa.
No meio do caminho, Sandro pediu para Kalu esperar, e entrou no mato.
Enquanto esperava, ele ouviu o som de um tiro, mas não se moveu. Apenas fechou os olhos e continuou esperando. Sandro voltou da mata, cheirando a terra, sangue e pólvora.
Os primeiros raios do sol entravam pela persiana parcialmente aberta, desenhando linhas douradas no piso de madeira do quarto. Luana, ainda de pijama, se espreguiçava na pequena sala que também era seu escritório. Os equipamentos de comunicação e análise de dados estavam cuidadosamente organizados em uma mesa. Ao lado, um vaso com uma samambaia pendia suavemente, movido pelo ar que vinha do ventilador no teto.
Ela pegou um café forte na cafeteira automática. Preferia doce, variando entre açúcar mascavo e demerara. Sua tarefa matinal era revisar relatórios de drones e câmeras de observação, e verificar as informações que os grupos de caça tivessem enviado. Kaluanã havia saído antes do sol nascer, se encontrando com sua equipe e pegando a estrada. Eles já haviam vasculhado dois lugares logo no início da viagem, então ela já tinha dados para compilar desde que acordou. As telas exibiam paisagens cheias de verde, turbinas eólicas girando no horizonte e trabalhadores atuando nas várias atividades da cidade. Ela também recebeu fotos aéreas e de locais onde os caçadores haviam vasculhado, vídeos de cavernas e de acampamentos abandonados. Nada que sugerisse atividade bandeirante.
Ela sempre se orgulhou de seu trabalho. A inteligência militar em Passo Bonito, e em Cambará como um todo, não era voltada para conflitos diretos, mas para garantir que o povo permanecesse protegido de ameaças externas. E justamente por isso, eles estavam atuando tão enfaticamente no que ocorreu com os bandeirantes. Mais câmeras estavam sendo instaladas na capital e nas cidades menores.
O som do notificador interrompeu sua concentração. Ela clicou para abrir. As imagens transmitidas eram capturas da parte interna de Passo Bonito, um pacote de imagens que chegava diariamente para os membros da inteligência para que pudessem verificar se tinha algo errado. Geralmente eram fotos de pessoas diferentes do padrão. Quase sempre eram turistas, viajantes de passagem ou tropeiros de Araucária que estavam por ali efetuando as trocas. Ela estava observando as imagens de rotina e bebericando seu café, quando uma figura chamou sua atenção no meio das pessoas que frequentavam uma feira. Seu coração disparou.
“O que ela faz aqui?”, pensou Luana, vendo a imagem de uma velha
conhecida na tela.
Luana recostou-se na cadeira, ainda segurando a xícara. O café esfriava
lentamente enquanto ela encarava a tela. Uma guará’i, quase da mesma idade que ela se esgueirava pelas ruas e becos de Passo Bonito. Ela usava uma saia de padrão quadriculado bem comum nas ruas da cidade, seu cabelo ia preso em uma trança e ela usava uma camisa laranja. Sua presença era notável, mas seus movimentos a camuflavam no meio da multidão. Em determinado momento, ela olha para a câmera e dá um sorriso, para depois desaparecer.
Independente dos motivos, Luana sabia que a presença de sua prima Liz na cidade só poderia significar problemas.
Os grupos de caça se organizaram para vasculhar trilhas e caminhos que levassem até o território de Jacarandá. Kaluanã levaria seu grupo de elite no transporte de Beto. Kaya, a harpia’i, e Zezinho, o gigantesco arara’i, coordenavam os grupos aéreos, mapeando e organizando as informações sobre as rotas. Luana e outros membros da inteligência reuniam fotos, mapeavam locais, conectavam informações e comunicavam a outros grupos. A informação chegava rápido, mas a demora das ações se devia a questões físicas. Para vasculhar, era necessário entrar em matas fechadas e cavernas, o que causava um gargalo nas operações.
O grupo era formado por Abaeté, um engenheiro de combate tamanduá’i responsável pelos aparatos de infiltração. Ele era sério e compenetrado, passando boa parte de seu tempo trabalhando em apetrechos, drones e outras coisas importantes nas missões de infiltração. Suas mãos enormes e fortes eram auxiliadas por dois pequenos braços mecânicos, bastante precisos, que ele mesmo desenvolveu. Terena, uma capivara’i, era responsável por abater os sinistros e líderes de culto de maneira precisa. Ela era exímia com o arco, preferindo-o a armas de fogo devido a sua precisão, adaptabilidade e silêncio. Ela era alegre e se importava bastante com seus colegas de equipe, o que contrastava com sua função de executora no grupo, fazendo de tudo por suas crianças. Pedro era o único primogênito do grupo. Ele era animado e forte. Seu senso de humor nas horas vagas era substituído por uma frieza em combate que superava qualquer desafio. Ele havia desenvolvido uma técnica de combate baseado na tradição neo-xingú com armas duplas que o tornava um furacão de fogo e aço contra os inimigos. Eles eram completados pela estratégia de Kaluanã, a coragem de Sandro, as informações de Luana e quando necessário, o apoio aéreo de Kaya.
Sabendo que seria uma missão perigosa, Kalu solicitou a presença de um médico de campanha, e Arnaldo, o Açougueiro, foi quem se apresentou. Ele era um queixada’i musculoso e quase tão velho quanto Beto. Ele nunca falava a origem de seu apelido pra ninguém, só Beto sabia. Enquanto Beto preferiu trabalhar apenas como motorista dos Caçadores ao chegar à velhice, Arnaldo continuou atuando nos campos de batalha após as Guerras de Unificação, até os dias de hoje. Beto era aberto, sorridente e brincalhão, enquanto Arnaldo era turrão, teimoso e reclamão. Eles eram os únicos sobreviventes de seu antigo pelotão.
Arnaldo ia na boléia com Beto, os dois velhos combatentes discordando sobre músicas, sobre melhores estradas para se pegar, sobre qual o melhor horário para a parada de almoço, e tudo o mais que fosse possível gerar uma discussão. Beto ria e zombava das opiniões de Arnaldo, enquanto o queixada’i ficava cada vez mais irritado, seus pelos ficando eriçados. Ainda sim, eles viajavam bem, e Arnaldo chegou a dirigir por um tempo para que Beto pudesse dormir um pouco.
Durante o dia, eles faziam missões de reconhecimento adentrando cavernas e locais que o grupo aéreo identificava como possível esconderijo. Sandro sempre saía na frente, ansioso para se resolver com os Bandeirantes, mesmo que isso o colocasse em perigo. Kalu confiava nas habilidades do primo, mas sabia que esse comportamento poderia ser um problema. Por sorte, não encontraram nada nem ninguém em suas primeiras incursões. Sandro ia na vanguarda, Pedro e Terena buscavam os flancos, Kalu ia pelo centro, pouco atrás de Sandro, e Abaeté fechava a retaguarda. Quando era possível, Kaya cobria os céus. Mas nada aconteceu nos primeiros dias da missão. Após uma semana, a ansiedade de Sandro se transformou em uma frustração calma. Ele, mais do que ninguém, precisava se provar contra os inimigos, e não encontrá-los em nenhum lugar o deixava furioso e triste.
À noite, nos acampamentos, o grupo relaxava e comia. Acendiam fogueiras para se aquecer da umidade pantaneira, colocando ervas e madeiras com um cheiro específico que afastava insetos. Em algumas noites, o grupo de voo se juntava a eles. Tocavam músicas, com viola e sanfona, chamamés com letras saudosas sobre amores perdidos, vida no campo e até algumas músicas sobre as Guerras de Unificação, estas puxadas especialmente por Beto, com Arnaldo acompanhando. Numa das noites, ficaram juntos de um grande grupo de tropeiros de Araucária que estava de passagem, a caminho de Samaúma, comendo sua comida e trocando histórias com seus compatriotas desconhecidos. Conheceram Lima, um cachorro’i-do-mato bastante responsável e alegre, guia daquela tropa que estava a caminho de algumas localidades no interior de Jacarandá, e Mãe Rita, uma simpática capivara’i médica que se preocupava muito com seus companheiros de estrada. Ela e Arnaldo ficaram horas conversando sobre medicina, ela uma cuidadora comunitária, ele, um médico de guerra.
Em outras épocas, Sandro era o primeiro a puxar uma viola e animar os companheiros, mas nas últimas semanas ele se escondia nas barracas. Terena era a única que conseguia elevá-lo o suficiente para pelo menos se sentar perto dos outros ao redor do fogo. Kalu sempre que podia ligava para Luana para vê-la e as crianças. Ele sabia que a missão era perigosa na mesma medida que parecia estar sendo infrutífera, e se perguntava se a falta de resultados era algo genuíno, ou se eles estavam deixando passar alguma coisa.
Os dias foram assim, com o grupo chegando cada vez mais perto de Jacarandá.
Em Passo Bonito, a vida começou a se adaptar novamente. O luto ainda era presente, com faixas pretas amarradas em portas e janelas da cidade, especialmente em locais ligados às famílias das crianças raptadas. O Palmares se reuniu mais uma vez após a partida dos pelotões para tratar de outros assuntos que não puderam ser tratados naquele dia. E sempre depois do Palmares, Paulo aproveitava para caminhar pela cidade.
Ele passava cumprimentando as pessoas pelo caminho. Aproveitava para jogar truco e dominó nos bares, conversava com os velhinhos e velhinhas nas calçadas, arriscava chutar algumas bolas com crianças. Seu sorriso fácil estava sempre presente em seu rosto, na mesma medida que seu nojo pelo povo consumia seu estômago e queimava suas narinas. Sempre que voltava para casa ou chegava nos aposentos internos do Palmares, ele passava longos minutos no banho, para se livrar do pó e do cheiro do povo. Era sua obrigação, no entanto. Ele tinha planos.
Em seu gabinete, ele trabalhava pouco e fingia muito. Chamava seus assessores a todo momento, marcando reuniões atrás de reuniões para fazer parecer que estava a todo momento trabalhando. Ele estava sempre lendo alguma coisa, escrevendo alguma coisa, mas nenhuma ideia saía de sua mesa. Ele sabia que tinha se tornado o presidente do Palmares regional por circunstância do momento, e estava aproveitando cada segundo. Para isso, ah sim, para chegar a esta posição, Paulo trabalhou bastante. Jamais iriam saber todas as negociações que ele fez com pessoas de vários setores da cidade. Jamais saberiam que ele chegou a trabalhar nos Grandes Campos exatamente no dia que teria o maior número de membros do Palmares lavrando a terra, naquele dia, e em nenhum outro dia além disso, adulterando documentos para ninguém descobrir que ele não fazia sua parte pela cidade. Ninguém imaginaria que Paulo inventava missões para afastar membros dos caçadores exatamente nos dias importantes de votação. Paulo trabalhou muito para estar onde está. Ele tinha objetivos muito claros.
Quando o último de seus assessores saiu de sua sala, Paulo relaxou, ligando o rádio e se deitando no sofá. Era o meio da tarde, mas ele poderia tirar um cochilinho. O sol da tarde entrava pela janela, dourando a sala em uma atmosfera tranquila. Ele estava quase dormindo quando uma sombra cobriu seu rosto. Ao abrir os olhos, deu de cara com um focinho enorme, um cabelo em trança e um cheiro de lavanda.
Com um grito, Paulo deu um salto e se escondeu atrás do sofá, olhando para a guará’i que o observava, em silêncio.
— Te assustei, Paulinho ?- disse ela. Sua saia com padrões quadriculados refletia a luz do sol quando ela se mexia.
— Maldita seja, Liz! O que diabos você está fazendo aqui? – disse ele, arrumando o alinhamento de suas roupas.
Ela se levanta e caminha vagarosamente até ficar na frente dele, quase o dobro da altura do pequeno quati’i.
— Você está demorando, e eu vim ver o porquê. Não pense que nós nos esquecemos do acordo, e estamos trabalhando na nossa parte dele. Você está trabalhando na sua parte? – disse ela, se curvando até ficar bem perto de seu rosto.
Uma luz roxa dançava em sua íris.
Paulo deu um passo atrás, se afastando dela.
— É, é claro que sim! As coisas só estão um pouco conturbadas – disse ele, indo para trás de sua mesa – Teve toda essa questão dos bandeirantes, e agora os caçadores estão..
— Silêncio — disse ela — Eu não quero desculpas. Você tem uma função muito específica no plano. Lembre-se sempre que não somos nós quem precisamos de sua ajuda, são vocês quem precisa da nossa.
Nesse momento, Paulo se irritou.
— Ah, é mesmo? Se vocês não precisam de minha ajuda, porque me procuraram e não fizeram tudo sozinhos? Não subestime a minha paciência! Eu posso acabar com você em um estalar de dedos!
Ela o encarou por longos segundos, e o pequeno Paulo sustentou seu olhar.
Ele estava com medo, mas tinha certeza de seu propósito. Ele não recuaria diante de ninguém. Liz então deu uma gargalhada.
— Querido, eu não vim até aqui irritá-lo. Vim até aqui avisá-lo. Seu tempo está acabando. Ou você cumpre sua parte, ou nós faremos o que precisamos fazer sozinhos. E você não vai gostar se isso acontecer. Não gostamos de você, mas enquanto você for útil, confiaremos em você. Não conte com isso para sempre, querido.. — se afastando, Liz entrou atrás das cortinas, e desapareceu. Paulo ficou parado, respirando fundo. No chão, uma taça de vinho jazia derrubada, espalhando o líquido pelo chão de madeira. No sofá, as almofadas apresentavam furos no centro, parecendo algo feito por um punhal, onde era possível enxergar a espuma em seu interior. “Quando ela fez isso?”, ele se perguntava. Ele enxugou seu nariz, foi até o balcão e se serviu de mais vinho e uma dose de cachaça.
Era hora de trabalhar.


