Capítulo 1: Prelúdio

“Inspire. Conte até quatro, e então expire lentamente.

Inspire. Conte até quatro, e expire pela boca ou nariz, como achar melhor.

Inspire o máximo que puder. Você tem quarenta segundos a partir de agora.”

Kaluanã sabia que em uma situação comum conseguiria ficar alguns minutos prendendo a respiração. Infiltrar-se em uma usina abandonada cheia de Filhos de Geiger e um Sinistro desconhecido não era uma situação comum. Corriqueira talvez, mas não comum

Trinta e nove.
Cada passo para a região central do reator pesa sobre os ombros dele, mas ele avança.

Trinta e oito.
Kaluanã segura sua lança com força, seguido de perto por seus melhores companheiros.

Trinta e sete.
O som da criatura pode ser ouvido, ainda a uma distância de algumas dezenas de metros.

Trinta e seis.
Ela era maior do que eles esperavam, se movia com raiva e parecia estar comendo.

Trinta e Cinco.
Tomando cuidado para não esbarrar em nada e não pisar em nenhuma poça, o grupo avança devagar e Trinta e quatro firmemente, cinco dos melhores do grupamento. Seus movimentos são precisos, Trinta e três, e eles se posicionam na porta central que barra o acesso ao pátio do reator.

Trinta e dois.
Ao olhar pelo vidro das portas, é possível vê-los, vários deles, louvando sua criatura e cantando músicas estranhas.

Trinta e um.
Kaluanã saca uma pistola de eletro-carga, com balas que além de perfurar, causam choque.

Trinta.
Sua lança de metal energético de um metro e meio é preparada para perfurar quase qualquer criatura, mas sempre é Vinte e Nove um mistério a forma e tamanho que um sinistro terá. Ele se prepara.

Vinte e Oito.
Com um sinal, eles entram pela porta central. Kaluanã é o primeiro, um guará’i de dois metros disparando todas as Vinte e Sete doze balas de sua pistola com a mão esquerda. Abaeté, um Tamanduá’i, adentra com uma espingarda de precisão nos braços mecânicos, Vinte e Seis, sua máscara anti-radiação comicamente grande em seu longo fuço, e suas poderosas garras alongadas prontas para perfurar.

Vinte e Cinco.
Também na vanguarda, outro guará’i, Sandro, dispara seu fuzil contra os fanáticos em uma cadência absurda. Ele chove metal sobre os inimigos

Mesmo em maior número, os cultistas Vinte e quatro não têm chance alguma. Não há líder a vista, nem armas de fogo, então Sandro apenas dispara.

Vinte e Três.
O perigo não são os fanáticos. Sendo de baixo escalão, eles só tem cajados e estão muito doentes, comidos Vinte e Dois pelo gás do lugar. De cima de uma ruína, Ana, uma capivara’i, dispara flechas explosivas contra o Vinte Um imenso sinistro que se assustou com o barulho, mas agora se volta contra o grupo.

Vinte.
Ao lado dela, Pedro, o único Primogênito do grupo, dispara balas explosivas de seus rifles contra a criatura, que se machuca, mas Dezenove ainda é um perigo. Ela é alta demais, com membros e dentes demais

Dezoito.
Enquanto a batalha se desenrola, Kaluanã avança. A criatura gigantesca, com um único olho na testa, nota o borrão laranja se aproximando rapidamente.

Dezessete.
Com uma boca vertical aberta em toda a extensão de sua barriga e braços gigantes, ataca o Caçador. Kaluanã se abaixa, jogando Dezesseis fora sua pistola vazia e entrando no campo próximo do Sinistro.

Quinze.
A criatura dá um pulo para a frente tentando pegá-lo com sua boca inacreditável, mas ele desvia. A criatura se enfurece e Quatorze começa a agitar seus braços tentando pegá-lo. O caçador faz um corte nos braços gigantes e fura um dos cinco pés da aberração.

Treze.
Quando grita pela dor, o monstro abre a guarda, se abaixando para pôr a mão sobre seu pé ferido, e com isso, abaixa sua cabeça.

Doze.
Kaluanã gira todo seu tronco para um lado, e reverte para o outro, catapultando seu braço e arremessando sua Lança de Metal Energético.

Onze.
A lança atravessa a cabeça do Sinistro. Por sorte, este tinha uma cabeça que dava para identificar.

Sem parar, Kalu corre para a saída ativando Dez o puxão magnético de sua lança para que ela venha até ele, enquanto veste uma Nove luva para pegar a arma cheia de sangue infectado. Ele não gosta de lutar de luvas, “perde a aderência”, afirma.

Oito.
Os fanáticos restantes se jogam contra ele como um enxame, enlouquecidos pela morte de sua divindade-aberrante.

Sete.
Ele corre para a saída desviando com calma dos oponentes, sabendo que nenhum deles jamais o tocará.

Seis.
Ele sabe que seus companheiros dificilmente erram.

Cinco.
E ele está com um time dos melhores entre eles.

Quatro.
Ele pega a lança no ar e com um pulo para a frente crava no coração do último dos fanáticos que tentava pará-lo.

Três.
Seus companheiros se recolhem de onde estão, recarregando as armas e trocando pentes.

Dois.
Kaluanã balança sua lança e ativa o líquido de limpeza que deixa para trás sangue, impureza e morte.

Um.
Ele cruza o beiral da porta, fechando-a atrás de si, e expirando o ar que guardou durante toda a luta.

Seu primo Sandro o olha com desdém.
— Você ainda faz isso de prender o ar? É besteira, Kalu. Radiação não funciona assim – diz ele enquanto se prepara para sair dali.
— Eu sei que as máscaras funcionam, mas fazer o que, trauma é trauma – diz Kaluanã, encaixando sua lança no suporte tocando seu coldre vazio. Ele se lembra então que jogou a pistola fora.

Ele dá um tapa na testa, sabendo que se não devolvesse a arma que Luana lhe emprestou, ele ia ficar ouvindo por horas e horas. Para a surpresa de ninguém, ele dá meia volta, tranca a respiração, e adentra na sala novamente para buscar a arma.


A volta para a cidade de Passo Bonito é tranquila. O grupo de Kaluanã estava a bordo de um caminhão de assalto preparado para terrenos difíceis, mas após chegar na estrada principal, os chacoalhões param e o transporte se torna um passeio contemplativo.

O grupo havia se higienizado no chuveiro especial antes de embarcar, e agora dormiam nas redes penduradas na parte de trás, na caçamba. Toda a água e roupas usadas na ação são guardadas para serem desradioativizadas depois.

Kaluanã ia na boléia junto com Beto, um Capivara’i que dirigia o caminhão. Enquanto voltavam, era possível ver o pôr do sol na distância, se escondendo por trás do horizonte enquanto bandos de pássaros faziam seu último vôo antes da pausa para dormir.

Ao lado da estrada, fazendas e pastos se revezavam com mata silvestre, e passando dezenas de metros acima, o trilho magnético dos trens de transporte iluminava o início da noite, levando pessoas de um canto a outro da imensa Nação.

Mesmo que raros nestas paragens, as ruínas dos Primeiros Filhos estavam lá, observando em silêncio a passagem do caminhão. Kaluanã, líder do Décimo Primeiro Pelotão de Caçadores de Sinistros de Cambará era um homem corajoso e forte. Mas toda vez que ele via alguma ruína dos Primogênitos ou das Guerras de Unificação, ele sentia um calafrio e seus pêlos se arrepiavam. Ele sabia que outros já haviam tido esse mundo lindo em suas mãos e o deixaram escapar levados pela mesquinharia e egoísmo. A mesma mesquinharia que duas gerações atrás foi derrotada fragorosamente nas Guerras de Unificação, e o corpo caído dessa besta sistêmica serviu para construir o mundo novo. Mas ele também sabia que tudo poderia ser destruído se eles não se mantivessem vigilantes.

— Pensando no quê? – perguntou Beto, curioso. Ele quase sempre estava mascando um matinho.

— Em nada – mentiu Kaluanã – acho que só tô com fome.

— Eu também. Sabe, quando a gente viajava com as tropas, assim, nas antigas, a gente costumava parar em barraquinhas de lanche que tinha na beira da estrada. Era muito louco pensar que praquelas pessoas, a vida tava tudo normal. Tinha guerra nenhuma não, toma aqui um pastel!

Eles riem. Beto era um jovem recruta na época das Guerras de Unificação. Ele lutou ao lado de Sherat’i e Primogênitos por anos para ajudar a fundar a Nação dos Ipês. Hoje, um idosinho em sua reta final, gostava de ajudar dirigindo e contando histórias pros jovens. Era um herói, mas não quis saber de descanso. Seu lugar era na estrada.

Eles viajaram por 8 horas até chegar em Passo Bonito. A cidade era mediana, algumas dezenas de milhares de pessoas vivendo por ali, divididos entre suas funções do dia a dia, e as funções necessárias para fazer as coisas funcionarem. Kaluanã vivia em uma vila um pouco mais afastada do centro, com uma família grande em uma grande casa com muitos quartos. Ele desceu no posto de controle, assinou a papelada, se despediu de seus colegas e caminhou para casa. 

Uma caminhada longa, de uma hora, mas que colocaria as ideias do guara’i no lugar. Ele cumprimentava as pessoas que encontrava no caminho, sentadas na calçada conversando ou trabalhando nos afazeres domésticos. Encontrou crianças brincando com bolas, soltando pipas ou jogando gude. Havia muitas crianças em Passo Bonito, e isso era algo recente. As coisas vinham dando certo para a cidade.

Ele encontrou equipes da prefeitura arrumando a fiação iônica e elétrica, viu pessoas lavrando a terra em quintais particulares, e passou pelo Grande Campo. Quase toda cidade da Nação tinha um grande Campo, um local onde todas as pessoas da cidade se dividiam em turnos de horas, alguns dias por semana , para trabalhar na lavoura. Grãos, hortaliças, frutas, gado, todo tipo de bens alimentícios eram cultivados por todos na cidade, e assim, Passo Bonito era alimentada. O que sobrava, era enviado para os galpões da Nação, de onde eram redistribuídos para regiões que estivessem precisando. Todas as atividades da cidade funcionam dessa maneira. As pessoas trabalhavam quatro horas em alguma empresa pública, arrumando ruas, consertando redes, erguendo casas, construindo pontes. No resto do dia, são livres para trabalhar onde quiserem, fazer arte ou praticar esportes, passear ou ficar de bobeira. Todos ajudavam a manter a cidade que era de todos.

Ele olha para as pessoas trabalhando, reconhece algumas e cumprimenta. Ele suspira, pois sabe que teria dois dias de descanso apenas antes de voltar para a enxada e os sacos da colheita. Era seu dia a dia, até ser chamado para outra missão. Até ser obrigado a ver a podridão e a perfídia se escondendo pelos cantos do território, até ver a doença e o miasma tentando sair de suas tocas e alcançar as pessoas que ele amava. Até ter que dar de frente com fanáticos, caídos em algum conto mentiroso de que a libertação viria pela decomposição da carne em vida. Kaluanã chacoalha a cabeça, olhando para o céu e apertando com força sua lança. Ele amava sua família, seu trabalho na lavoura, o tédio do comum. 

Paz, verdadeiramente.

E na mesma medida, odiava os Sinistros e seus adoradores por arrancá-lo de sua cidade para fazê-lo cumprir seu dever. Ele afasta esses pensamentos antes de chegar em casa. Queria rever seus amores com um sorriso no rosto, e não com o cenho franzido. E assim, ele segue caminhando.

Ao chegar em casa, Kaluanã vai cumprimentando seus familiares e os familiares de seus familiares. Eles se dividem principalmente entre guara’i, cachorro’i e um braço da sua família paterna é composta por veado’i. Crianças de todas as espécies, até mesmo primogênitos da vizinhança, se espalham pelo quintal chutando uma bola muito leve enquanto alguns dos mais velhos estão trocando uma calha no telhado. “O tio Kalu chegou!” gritam algumas delas, sem fugir de sua missão de caça atrás da bola. Ele cumprimenta Joca, um velho guara’i, e Tião um veado’i de meia idade, seus cunhados, compenetrados com a questão da calha. As chuvas haviam levado folhas para o sumidouro, e a água transbordou, alcançando fios das placas solares que não deveriam ser molhados.

Dentro da casa ampla, mais três pessoas trabalhavam descascando e picando legumes para o almoço do dia. Ele sobe as escadas até o quarto, onde Luana estava sentada ao computador, em uma reunião. Ela trabalhava na inteligência da Companhia de Caça, que foi onde se conheceram. Ele entra silencioso e acena. Ela lhe devolve um sorriso, sem perder o assunto discutido. Ele sabe que tem a ver com números e estatísticas da movimentação dos Filhos de Geiger, mas ele não está com cabeça pra prestar atenção. Ele segue direto para um banho, agora para tirar o peso da viagem das costas, e pela pequena janela basculante, com vidro em gomos para dar privacidade, ele vê sua filha Amanda e seu filho Jaguaraçu correndo no quintal. Eles não viram seu pai chegando, o que dá a ele tempo para descansar e conversar com Luana.

— Chegou cedo – diz ela, dando um susto no absorto soldado.

— É, poisé. — ele responde. Ele não gostava de dar muitos detalhes da parte violenta de sua vida para Luana. O que é uma bobagem, já que ela é da Inteligência, e tem acesso a todos os relatórios, fotos e tudo.

— Vicente estava lá? – pergunta ela, entrando em baixo da água junto com ele.

— Não. Uma das Sacro-usinas estava completamente vazia, e na outra tinham apenas cultistas de baixo escalão e um Sinistro nível Quatro. Foi rápido. Mas nem sinal dele.

Eles terminaram o banho em silêncio e descansaram até a hora do almoço. Na cabeça dos dois, sem que um soubesse do outro, a figura de Vicente pairava. Ele era um dos líderes dos Filhos de Geiger que vinha causando problemas há anos. Era um cientista proeminente, vindo para dar aula na região de Cambará. Era um professor conhecido  em várias universidades de Carnaúba. Mas no seu caminho para Cambará, sumiu, e apareceu meses depois liderando um grupo imenso dos Geiger. Depois que assumiu a liderança, os fanáticos mudaram de táticas drasticamente e conseguiram desenvolver um tipo de tecnologia que confundia os radares dos Caçadores. Todo o trabalho feito nas últimas duas décadas para desbaratar as atividades dos Geiger foi jogado no lixo, e a situação se encontrava piorando. Luana abraçou Kalu mais forte. Ela sabia que isso significava que  ele ficaria ainda mais tempo fora de casa.

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— Aconteceu de novo, mais duas pessoas, Kalu. Eles estão chegando mais perto!

Sandro parecia nervoso. Ele morava no mesmo casarão da família e tinha um relacionamento com uma veada’i. Relações interespecíficas eram comuns, a única consequência sendo a impossibilidade de gerar filhotes . Ele parecia ansioso, andando de um lado para outro, coçando a cabeça. Ele esperou as famílias se recolherem para a sesta ou ir trabalhar no Grande Campo para conversar com Kaluanã e Luana sem interrupções. A sala já era grande o suficiente para umas trinta pessoas se acomodarem com tranquilidade, mas com apenas os três ali , o recinto parecia infinitamente maior.

— A gente não tem evidências ainda, Sandro, não dá pra ficar paranóico – disse Kaluanã. No fundo, ele sabia que Sandro devia estar certo, mas ele não queria dar mais corda para a teorias dele. Se deixasse, seu primo sairia agora mesmo com uma frota de caminhões e armas para caçar moinhos de vento, colocando a cidade inteira em pânico.

— Mas é claro que dá! Eles estão ficando mais ousados, aqueles vermes! A inteligência de Jacarandá está dificultando cada vez mais os raptos e mapeando os malditos, mas eles somem. Os maltas só tão fazendo o serviço deles, mas isso faz os malditos bandeirantes procurarem vítimas em outros lugares, e eles estão vindo justamente aqui! Devem estar usando túneis dos Primogênitos, sei lá! Kalu, a gente tem que fazer alguma coisa. Se a situação piorar, com os Geiger aumentando,e mais isso, a parada vai ficar feia.

Luana olhou para Kaluanã, e ele pôde ver nos olhos dela que ela também estava preocupada. Antigamente, os Bandeirantes de Santa Cova eram um problema da região de Jacarandá. Eles já haviam trabalhado com os Jacarandanos para tentar desbaratar essas ações e encontrar a base dos bandeirantes, mas sem sucesso. Uma coisa é enfrentar uma horda de fanáticos religiosos e doentes, com um mínimo de tecnologia, o que já era difícil. Outra bem diferente era enfrentar um grupo altamente treinado, furtivo, com armamento pesado, ainda que antiquado. Eles eram um grupo exclusivamente formado por Primeiros Filhos, chamando a si mesmos como a última esperança da “Raça Humana”, seja lá o que quer que isso signifique. Para a Nação, significava que eles viam os sherat’i como presas, monstros, cobaias, como objetos para serem roubados, e isso era inaceitável. Já haviam acontecido alguns Palmares na região para definir a rota de ação contra eles, mas nenhuma das ações foi efetiva.

— Vamos convocar o palmares regional. Já temos mesmo que seguir a trilha do Vicente, e ela vai na direção de Jacarandá. De lá, contactamos os Crias e os Maltas e tentamos bolar um plano em conjunto. Luana vai mandar os comunicados — ele diz olhando pra ela, que assentiu em resposta — e vamos ter alguma coisa nos próximos dias. Pode ser assim? — cogitou Kalu, tentando acalmar seu primo.

— Pode Kalu — concorda Sandro, ainda caminhando ansiosamente — Mas a gente tem que ter em mente que o objetivo não é só impedir novos sequestros, é resgatar as crianças que foram levadas. Podia ter sido a Amanda, ou o Jajá. Temos que agir rápido. Eu vou nessa, nos falamos depois.

Sandro nem tinha saído pela porta quando Luana se levanta para ir até o computador, se preparando para convocar um Palmares regional extraordinário com todas as lideranças comunitárias de Passo Bonito, enquanto Kaluanã veste seu uniforme para ir até a sede dos caçadores. Este era um problema que não podia ser tratado com lerdeza.

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