Mayara já tinha ouvido falar dele. O Diácono, o Predador, o bandeirante mais condecorado e violento dos túneis, estava diante dela, num momento em que ela estava fora da lei. Atrás dele, um grupo de nove mecânicos e seis soldados se espalhava para ver porque o Diácono parou. Atrás dela, seus amigos começaram a gritar, dizendo para Mayara correr e sair dali, enquanto eles procuravam cobertura. Tudo isso aconteceu em menos de dez segundos, enquanto a garota tentava concatenar o que estava acontecendo. Ela só voltou a si quando a mão gigantesca de Tavares enrolou-se em seu antebraço e ele gritou: “Prendam estes ratos e matem os que resistirem!”. Ela fez um movimento, buscando o chão abaixo de si e tentando correr, mas parecia que seu braço estava preso em concreto. Tavares se abaixou perto do rosto dela enquanto soldados e Salvadores começaram a trocar tiros e os mecânicos se jogaram no chão, gritando de medo, e disse: “Você não vai a lugar nenhum, ratinha”.
Enquanto ela congelava, sendo erguida como uma boneca de pano pelo enorme soldado, e as balas criavam traços de luz na escuridão, um rugido ensurdecedor ecoou pelos blocos de concreto, os tremores prenunciando um perigo inesperado.
Algum tempo antes de moradores de uma cidade subterranea começarem a se matar pelas ruas, os Caçadores de Cambará e Maltas Guanabaras se dividiram para fazer turnos em noites separadas. Na primeira noite, a equipe de observação foi formada por Kaluanã, Sandro, Terena e Manoel. Kaya daria suporte aéreo. Os outros membros ficaram em um novo acampamento, montado no interior da cidade morta para ficar mais perto.
Posicionados em prédios ao redor do grande gerador eólico, os quatro se organizaram para ficar em um local escuro, esperando. De sua janela, Kaluanã podia ver a rua. Havia menos carros pontilhando aquela ali, muitas árvores mortas e vários prédios semi destruídos. De lá, ele podia ver um grande muro. Havia alguma coisa escrita com tinta na parede, com algumas letras reconhecíveis, mas ele não conseguia ler. O gerador estava parado ainda. Todos os quadrantes estavam sendo observados, então só restava esperar.
Enquanto estava lá, Kalu pensou sobre tudo que vinha ocorrendo. Os Filhos de Geiger diminuíram sua atividade em Cambará. Restava dúvidas sobre se estavam em um movimento de retração, ou se estavam planejando algo. Eles estavam em contato direto com Araucária e Jacarandá, mas eles também não haviam detectado nada diferente. Samaúma e Carnaúba estavam lidando com os invasores do Norte, então, os Geiger não eram sua preocupação no momento.
Bandeirantes começaram a agir em Cambará, quase ao mesmo tempo em que os Geiger sumiram. Devia haver alguma conexão entre estes fatos. Tudo estava estranho, perigoso. Ele se perguntava como Luana e as crianças estavam. Já faziam duas semanas desde que havia saído de casa. Ela lhe contou que a prima dela, Liz, havia visitado a cidade e passado rapidamente em sua casa. Geralmente isso era um mau sinal, mas nada importante no momento.
Em sua distração, ele demorou para perceber um pequeno movimento vindo de um dos cantos do quarteirão. Um grupo de primogênitos. Quando eles se aproximaram, viu que era um pequeno grupo, não exatamente de militares. Pareciam civis, carregando grandes mochilas e bolsas. Eram bem heterogêneos. Os três homens vestiam roupas com algum padrão de verde e tons terrosos. As garotas usavam roupas mais variadas, mas elas estavam, assim como eles, preparadas para caminhar bastante e carregar muitos objetos. Estavam levemente armados com armas brancas estranhas e armas de fogo rudimentares. Eles passaram relativamente devagar, observando carros e entrando em alguns ambientes.
— Movimentação no meu quadrante, seis primogênitos. Não são militares, apesar de carregar algumas armas. — disse Kaluanã, reportando pelo rádio — Kaya, observe-os do alto. Eles podem nos levar a alguma entrada, mas não são nossa prioridade.
— Positivo — respondeu Kaya, em algum lugar das nuvens.
Ele continuou observando o grupo enquanto passava. Uma das fêmeas chamou especial atenção dele. Ela tinha a pele escura, um cabelo volumoso e bonito. Ela estava sorrindo durante todo o tempo em que esteve no campo de visão de Kaluanã. Parecia estar no dia mais feliz da vida dela. Ele se pegou imaginando o que estava na mente da moça naquele momento. Eles nem mesmo tinham certeza se aquelas pessoas eram de Santa Cova. Se tivessem, Kalu teria ido atrás. Gostaria de ver o que mais aquela garota curiosa iria descobrir.
O tempo passou. Tudo indicava que aquela noite seria infrutífera. Os caçadores estavam em silêncio na noite estagnada da cidade, quando algo foi ouvido a algumas quadras dali. Uma gritaria, e de repente, muitos sons de tiros.
— Relatório! — ordenou Kalu
— Tiros a duas quadras da minha posição — respondeu Terena, tensa. — Dois grupos de primogênitos estão se enfrentando nas ruas!
— São os que você mandou seguir, capítão. Eles estão combatendo bandeirantes. Consigo ver feridos — disse Kaya, pelo comunicador
— Coé Kalu, a gente tem que ajudar eles — disse Manoel, ansioso,
— Não, nossa missão é encontrar uma passagem para o subsolo. Temos que nos manter em posição.
Sandro concorda:
— Ele está certo. Eu queria muito ter mais uma rodada com esse canalhas, mas precisamos seguir o plano.
Foi então que eles ouviram. Um rugido que ecoou na alma deles, e o barulho de prédios sendo derrubados em uma linha reta. Enormes nuvens de poeira se erguiam no rastro do que quer que tivesse passando. Sandro disse: “Alguma coisa acabou de derrubar várias construções aqui perto”.
—Pelotão, eu — engasgou Kaya — É um sinistro, mas nunca vi nada igual. Capitão, quais as ordens?
Kaluanã ativou as lâminas de sua lança magnética e colocou a máscara.
— Novo plano. Vamos matar o Sinistro, prender os Bandeirantes e interrogar os civis. Agora!
Eles saem de seus esconderijos enquanto Kaya diminui a altura de seu voô. Kaluanã estava só esperando uma desculpa para ajudar os civis, mas precisava ser o líder que não se deixa ser guiado por emoções. Mas a história mudou. Sinistros independentes costumam ser mais violentos que os monstros do culto, e eram uma prioridade entre os caçadores. O protocolo mandava que eles eliminassem qualquer Sinistro deste tipo à primeira vista, e ele ficou satisfeito com o protocolo dessa vez. Avisaram o restante do acampamento pelo comunicador, pedindo reforços, e então correram.
Mayara estava em choque. Ela estava no chão, em um canto, com dois soldados cercando-a. Viu os mecânicos se enrolarem uns nos outros no chão enquanto as balas voavam. Apesar de todo o aparato militar, Toco conseguiu derrubar um dos soldados com um disparo. O homem caiu perto dela, com um buraco em um dos olhos, e o outro aberto, imóvel. Os Salvadores seriam cercados, era uma questão de tempo, e ela não podia fazer nada. Mayara sentiu o chão tremer, achando que era algum tipo de resultado do combate. O Diácono havia largado ela no chão e estava agora no segundo andar de um prédio. Dali, ele poderia pular sobre a posição de Mochila, que ainda não tinha visto o inimigo. Ela não fazia ideia de como ele tinha ido parar ali, não haviam escadas para que Tavares subisse. A garota correu, escorregando nas pedras soltas enquanto suas mãos tentavam se apoiar no que estivesse pelo caminho. Uma rajada de balas passou perto de sua cabeça, obrigando ela a se esconder atrás de um carro. Ela procurou Tavares. Ele estava com a arma nas costas, e suas mãos apresentavam garras enormes e pêlos brancos. “Porque ele tinha as mãos tão peludas?” pensou ela, se distraindo momentaneamente do combate. Mayara queria gritar para Mochila, mas ela sabia que se revelasse sua posição seria morta. Naquele momento, seu instinto de sobrevivência fez ela se encolher e torcer para que seu amigo visse o soldado.
Foi então que o prédio onde o Diácono estava explodiu de dentro para fora, pedaços de concreto voando para todo lado. Tavares foi arremessado por metros e alguma coisa estava se movendo na nuvem de poeira e fazendo muito barulho. Ela nunca tinha ouvido ou visto nada parecido. Um soldado próximo dela deu um grito de pânico e o outro berrou para os companheiros:
— O Bandeira Caída! Atirem! Atirem!
Os soldados concentraram fogo contra a cratera aberta na construção e de lá saiu uma criatura que quase fez Mayara desmaiar, tamanha era a impossibilidade daquilo ser real. Era uma criatura feita de músculos púrpura e rosa, seu crânio carregava um único olho que poderia ser maior que a cabeça de um humano. Quase seis metros de altura, membros da espessura de uma pessoa. Ele se moveu muito mais rápido do que algo daquele tamanho deveria conseguir, criando uma onda de choque e vento após sua passagem. Sua mão com quase um metro de diâmetro esmagou um soldado bandeirante como se fosse um inseto, sangue colorindo os dedos humanóides do monstro. As balas dos soldados entravam em seu corpo, apenas para que os buracos se fechassem alguns momentos depois. Ele saiu matando bandeirantes e mecânicos com uma facilidade ridícula, cada golpe e grito estilhaçando vidraças e desmoronando paredes. Tavares estava de pé, caminhando com dificuldade, “Mirem na cabeça, malditos!”, gritou ele, disparando com sua arma de grosso calibre. As balas se espalharam sem causar danos na criatura.
Os Salvadores começaram a chamar por Mayara. Os soldados haviam abandonado sua posição. Era uma correria, uma bagunça geral. Ela saiu de seu esconderijo e correu na direção de seus amigos. Um bandeirante foi jogado contra uma parede na sua frente, quase acertando ela. A cabeça do homem estava com um formato de flor, aberta e sangrando. Seu braço direito estava faltando.
O Bandeira Caída já havia matado seis pessoas como se fossem nada enquanto a garota tentava passar pelo caos. Ela viu Giba e Toco carregando Mochila, que estava desacordado e sangrando pela boca. A poeira e a pólvora dificultavam ainda mais a visão. Mayara correu, suas pernas pesadas e o tempo desacelerado. Corpos e pedaços de corpos caíam perto dela, o sangue manchando suas roupas, concreto voando, muito barulho. O monstro se colocou na sua frente, de pé em toda sua altura, e a garota paralisou. Ela viu que ele usava uma túnica na cintura, uma paródia de uma roupa humana. Era feita da pele de algum outro animal, ela não sabia dizer qual. Suas costas traziam uma floresta de espinhos e membros arrancados de suas vítimas. Ela viu um braço de um bandeirante recém colocado no espinho, ainda sangrando e se movendo com espasmos musculares.
Foi então que naquele dia que não parava de surpreender a jovem garota de Santa Cova, uma flecha se alojou no braço da criatura. O monstro olhou para o novo ferimento, quase com uma expressão de arrogância, se isso fosse possível para uma aberração, quando uma luz verde na flecha ficou vermelha e ela explodiu, fazendo a criatura gritar e cair de joelhos, seu antebraço preso apenas por alguns tendões ao resto do corpo.
Um grupo de pessoas completamente estranhas apareceu, mandando os Salvadores de Memórias fugirem dali. Ofuscado pela fuligem e pela poeira, tinham corpos estranhos. Eles abriram fogo contra o monstro, que foi obrigado a recuar um pouco para que sua regeneração funcionasse. As balas daquele novo grupo pareciam ter muito mais efeito sobre a criatura do que tudo que os bandeirantes haviam tentado até ali. Ela se perguntou se eles estavam usando algum tipo de fantasia, mas percebeu que sua estrutura corporal era estranha. Mais uma vez ela achou que tinha visto uma mão coberta por pêlos, mas achou que era coisa de sua cabeça.
Dois deles avançaram e os outros deram cobertura. O primeiro, arremesava sem parar uma lança que ia e voltava contra a criatura. “Porque o rosto dele parece tão comprido?”, pensou ela. O segundo, com uma fisionomia parecida e com algum tipo de olho mecânico brilhando em meio ao pó, mirava sua arma e disparava tiros dolorosos contra o inimigo. Uma outra pessoa, de estatura baixa e carregando um arco, estava mandando os Salvadores saírem, indicando uma rota segura, com óculos de visão noturna e um grande dente frontal na boca; e um quarto, com roupas muito diferentes dos outros três e uma pelagem amarela e preta, se aproximou do monstro muito rapidamente, corajoso, e distribuiu chutes com uma bota de metal com lâminas e propulsores nos calcanhares e joelhos do monstro, que não conseguia se abaixar para pegà-lo, sendo afastado pelos ataques dos companheiros.
Os mecânicos saíram correndo pelos prédios, gritando, tropeçando e se machucando fugindo de qualquer maneira da monstruosidade. Os bandeirantes estavam se ajudando, aproveitando a distração que os intrusos criaram. Uma outra criatura desceu dos céus, derrubando um dos soldados com poderosos pés com garras, suas asas se abrindo na totalidade e com uma espécie de foice, cortando a arma de um outro soldado que mirou nela. Poderiam ser os homens-fera de que tanto ela ouviu falar durante toda sua vida? Para sua própria surpresa, ela não estava com medo. Nada como uma monstruosidade do tamanho de um pequeno prédio para alinhar suas expectativas.
— Vá por ali, garota! — Disse Kaya para a assustada Mayara.
Sandro se aproximou, derrubando com tiros mais dois bandeirantes, que pareceram perceber tardiamente que os sherat’i não estavam ali como grupo de apoio. Passado um momento atônito, os soldados de Santa Cova começaram a disparar contra eles, esquecendo por um tempo da monstruosidade. Sandro não deixaria aqueles malditos escaparem.
Kalu, Terena e Manoel focaram em combater o sinistro, que parecia estar relativamente controlado, enquanto Sandro e Kaya levavam o combate aos bandeirantes. As balas dos primogênitos paravam na roupa dos Caçadores, mas eles eram muitos e a cortina de aço dificultava a aproximação. Mesmo com a ordem de Kaya, Mayara não conseguiu se mover.
“Garota estúpida”, pensou Sandro, quando do alto o Diácono caiu sobre ele. Percebendo que as balas estavam surtindo pouco efeito, Tavares se jogou contra o atirador de Cambará, e eles rolaram pelo chão em uma luta corporal. Socos, arranhões, joelhadas e mordidas eram distribuídos enquanto Kaya piava e atacava os soldados de baixo escalão. A Harpia’i queria ajudar Sandro, mas se eles capturassem o líder, seria uma grande vitória. Ela confiava que ele conseguiria se virar sozinho.
Durante o combate, Sandro estava conseguindo tirar a vantagem do inimigo, mas numa distração, Tavares acertou em cheio um soco em seu rosto, arrancando sua máscara de proteção, derrubando o guará’i de bruços. O bandeirante se levantou, pronto para atacar o Caçador, quando Sandro se virou e Tavares viu seu rosto. Ele ficou atônito.
— O quê?! Sandro? — disse ele, sua voz abafada pela máscara branca.
Mayara deu um salto e acertou sua chave-facão nas costas do bandeirante, enquanto o guará’i aproveitou para dar uma rasteira no oponente. Tavares tropeçou, mas num giro impossível, caiu de pé, recuperando o equilíbrio.
Sandro não entendeu como aquele maldito sabia seu nome, e tentava se lembrar se já havia encontrado alguém como ele no passado quando um grito quase estourou seus tímpanos no comunicador. “NÃO!” gritou Kaluanã, e ele olhou para trás.
O Sinistro se ergueu no meio da rua. Estava regenerado, a pele aberta revelando músculos rosados e pulsantes. A lança de kaluanã estava em uma de suas mãos. O monstro tentava quebrá-la, sem sucesso, mas tampouco ela voltaria para as mãos do sherat’i. Na outra mão, ele ergueu Manoel, preso pela cabeça. O onça’i se debatia, dando socos na mão imensa. Suas pernas estavam quebradas, torcidas em um ângulo errado. Todos gemeram quando a criatura fechou a mão. O sangue escorreu entre os dedos do monstro, e o corpo de Manoel pendeu, amolecido. O monstro rugiu, jogando a lança torta para o lado, e logo após, arrancou um dos braços do Malta. Ele descartou o corpo do jacarandano, e enquanto deixava todos surdos com seu grito, prendeu o braço amarelo e preto em outro de seus espinhos, uma adição especial a sua coleção.
Kaya quebrou o silêncio de todos, dando um assobio agudo e saltando no ar com uma única batida de asas. Estava enfurecida, e se jogou contra o monstro com toda ferocidade, cortando com suas garras e foice, sujando suas roupas com o sangue esverdeado e magenta da criatura.
Sandro se recuperou do choque e lembrou do inimigo, mas ele já tinha ido embora. Os bandeirantes aproveitaram que Kaya avançou sobre o Sinistro para bater em retirada. Ele não poderia ir atrás dos sequestradores de crianças, então iria ajudar a matar a maldita criatura. Quando se levantou, viu que Terena estava puxando a garota humana pela mão. Ele mal a conhecia, mas a coragem que demonstrou contra o imenso Bandeirante atenuou seu desprezo. Ele engatilhou a arma e correu para perto do monstro, observando o balé aéreo de cortes e ataques que a harpia’i estava fazendo.
O monstro acerta um soco em Kaya, jogando ela no chão. Sua determinação era tanta que ela não soltou a arma, mas suas asas estavam quebradas. Terena chegou correndo com a garota humana enquanto Kaluanã ajudava Kaya a se levantar. Sandro disparava contra o Sinistro enquanto se aproximava. Mayara olhou para os lados, percebendo que os Salvadores haviam ido embora. Ela estava sozinha, com um grupo de pessoas animais feridas e sujas, e um monstro gigantesco vindo na direção deles.
Terena deixa Mayara com Kalu e corre para ajudar Sandro. Cada bala explosiva dele abria um buraco, cada flecha de fogo arrancava pedaços, mas a criatura não se abalava. Kalu estava carregando Kaya pelos ombros.
— Venha garota! Não fique aí parada! Temos que sair daqui!
Mayara viu a poderosa mulher pássaro chorando, viu o olhar de preocupação do homem cachorro, e viu a mulher rato-estranho e o outro homem cachorro pulando dos ataques do monstro, disparando sem parar.
— Eu quero ajudar! Me dá uma arma! — disse Mayara, reunindo coragem.
— Se quer mesmo, me ajude a carregar ela então. Eles são profissionais, não se preocupe — disse Kalu, passando Kaya para os ombros da garota humana — Vá levando ela por esta avenida, eu vou voltar para ajudar no combate.
Ele se vira apenas para ver a cena se desenrolar. Os motores dos reforços já podiam ser ouvidos aproximando-se. Kalu correu, puxando sua lança e disparando com a pistola de Luana. Mesmo torta, a lança começou a viajar para sua mão. Ele chegaria em dez passos no ponto onde poderia arremessar sua arma no olho da criatura, possivelmente encerrando sua atividade. Ele deu um passo, e viu Sandro saltar para o lado, desviando do inimigo, largando seu rifle sem balas e puxando duas facas de combate. Com mais um passo, ele viu o monstro desviar de uma flecha de Terena, erguer seu braço colossal e agarrar um pedaço de concreto de uma construção. Mais um passo; Kalu viu os músculos da criatura contraindo e o braço se dobrando como uma catapulta, jogando a pedra contra Terena. Ele sempre fazia aquele movimento ao jogar sua lança, e sabia que o monstro estava com a execução perfeita. No próximo passo, ele viu a pedra atingir a capivara’i na barriga, derrubando-a no chão. O Sinistro saltou, deixando Sandro e suas facas para trás, e aterrissou sobre Terena. No passo seguinte, Kalu arremessou sua lança. Ele tinha que pará-lo, tinha que impedi-lo, mas ainda estava muito longe. O braço da criatura se ergueu, seu punho se fechou. Terena estava enrolada em si mesma, na posição fetal de segurança. A lança passou abaixo da mão erguida do Bandeira Caída. Sandro estava correndo e gritando. Kaluanã estava tentando chegar perto. No próximo passo, o braço do Sinistro desceu. O impacto no chão causou um tremor, os sherat’i quase tropeçaram em sua corrida. O braço se ergueu mais uma vez, e mais uma vez desceu sobre a pequena capivara’i. E mais uma vez. E mais uma vez. Kalu puxou sua faca e ficou olhando para Terena enquanto corria. Ela tinha que se mexer. Ela estava quieta demais, precisava se mexer agora. “Mexa-se logo, porra!” pensou ele, sem tirar os olhos dela, ainda correndo. Sandro também estava chegando, e a criatura virou-se para eles. Ergueu o corpo de Terena, e sua mão gigante se aproximou do braço direito dela. Justamente do braço onde pendia uma pulseira de prata, com uma capivara’i adulta e cinco filhotinhas, ligadas por uma correntinha fina.
Um risco de fogo cruzou o céu noturno e explodiu no peito do Bandeira-Caída. O impacto foi tão poderoso que a criatura tombou para trás, soltando o corpo da caçadora. Kalu tentou pular para pegá-la, mas ela caiu fora de seu alcance e rolou duas vezes no chão, ainda imóvel. Da rua, Abaeté preparava outro míssil em sua bazuca tática, mas o monstro se levantou e fugiu com a mão no peito, derrubando mais construções e seu caminho. O míssil voou, iluminando a noite, mas atingiu uma parede de um prédio muito adiante. Arnaldo, o médico de combate, corria com uma maca até a posição dos guará’i. Kalu e Sandro estavam sobre Terena, mas sem saber o que fazer. O Queixada’i afastou os dois, enquanto os Maltas e Crias ultrapassavam-nos, indo atrás da criatura com suas motocicletas.
Beto, o capivara’i motorista, ajudou a colocar Kaya no caminhão, enquanto Mayara ficou parada, mais uma vez. Ela viu agora vários homens-fera chegando em veículos,não, chegando em carros, e atendendo os feridos. Ela percebeu que uma criatura enorme com longas garras e focinho, e um humano, jovem e bonito, somaram-se aos dois homens cachorro ao redor da pequena rato-estranho, enquanto o homem-chifres tentava reanimá-la. Por todo o lugar, pessoas com uniformes parecidos com o do primeiro grupo, em tons de laranja, amarelo e vermelho, se espalhavam recolhendo corpos, armas e objetos.
Mayara estava perdida. Luzes e sons passavam por ela, e ela não conseguia registrá-los. Sua mente estava uma bagunça, e ela começava a sentir os sinais de seu cansaço. Então, tudo ficou escuro.


