Capítulo 9 – Visões da Superfície

Em uma alcova, na parte alta da Sacro-Usina Matriz, em algum canto esquecido da Nação dos Ipês, Liz observava o ritual de adoração.

No centro de um átrio enorme, a divindade pairava, imóvel. O Sinistro conhecido como Sagrado Profano era uma figura perene, infinita. Desde que os Filhos de Geiger foram fundados há séculos atrás, a criatura já estava ali. Seus muitos braços e membros mudavam de posição apenas uma vez a cada década. Seu coração era bombeado por uma mão gigantesca a cada minuto. Seu corpo de mais de vinte metros flutuava a alguns centímetros do chão, e ninguém sabia como isso era possível. Ela não emitia som, ela não emitia cheiro e nem calor. Sua presença secreta e antinatural era igualmente maravilhosa e aterrorizante. Sua existência só podia ser explicada por milagres, porém Sua forma grotesca era absurda e mundana. Geralmente, olhar para aquela suposta divindade significava converter-se. Era impossível negar Sua presença.

Mas para Liz, assim como tudo ao seu redor, a criatura era apenas mais uma ferramenta.

Os devotos entravam e saíam do átrio em um ritmo lento. A maioria eram sherat’i, vindos de todos os cantos da Nação, mas haviam alguns primogênitos. Muitos eram desertores ou criminosos, que por algum motivo não se adaptaram à maneira de viver que a Nação inaugurou com sua fundação. Mas a maior parte eram sobreviventes da era anterior às Guerras de Unificação. Pessoas que por séculos sobreviveram com o que encontravam nos ermos infectados e radioativos do antigo país, castigado pela Chuva dos Mísseis. Eram comunidades que encontraram na fé uma maneira de sobreviver às dificuldades.

Haviam pessoas que estavam ali para ganho pessoal e também haviam pessoas que estavama ali por fé, ou por não terem outro lugar para ir, acostumados com aquela maneira de viver.

E havia pessoas como Liz.

Ela aguardava enquanto os cultistas se ajoelhavam e entoavam cânticos. Liderando a cerimônia estava o Padre Vicente. Ele distribuía um líquido de cor brilhante para os cultistas, e dizia palavras de conforto, dando abraços e apertos de mão. Era uma figura querida por todos ali. Seu corpo não tinha pelos, e ele usava uma túnica esfarrapada com os símbolos da fé, com pregos na região do ombro e braços que ficavam permanentemente machucando e fazendo-o sangrar. Por outro lado, ele evitava beber os líquidos sagrados e respirar o miasma divino para que não ficasse doente. Padre Vicente sonhava com o momento que o Veneno Sagrado o levaria para um mundo melhor, mas ele cumpria com sua missão diligentemente. Estava se esquivando da doença para viver mais e continuar guiando o credo, e para compensar, se flagelava com esta roupa.

Ao final da Cerimônia, enquanto todos saíam da Sacro-Usina, Padre Vicente subiu as escadas para encontrar sua agente.

— Só você pra me fazer subir estas escadas, Liz. Espero que tenha boas notícias.

— Tenho, Padre — disse ela, sem sair das sombras — Nosso contato está preparado para fazer sua parte no acordo. Em breve poderemos colocar o planejamento em prática.

— Tudo no seu tempo — disse o velho, com dificuldade para sentar. — Nosso povo está disperso. Leva algum tempo para reuní-los e prepará-los.

— Nossa melhor oportunidade é agora. A maior parte dos Caçadores está fora da cidade. O último conflito com os bandeirantes nos deu essa oportunidade. Não seria nada sábio deixarmos essa chance passar. Eles ainda vão ficar dias fora.

O Padre massageava as pernas, enquanto pensava em uma resposta.

— Teremos de esperar, e contar com a ação divina. Neste momento, cruzando nosso caminho, está o comboio de Anita.

Liz teve um calafrio ao ouvir o nome, estremecendo. O Padre percebeu.

— Então você entende. Ela cavalga na direção de Cambará nesse momento, uma centena de carros e uma infinidade de cavalos. Seus tropeiros já trouxeram ruínas sobre nós em Araucária. Se quisermos que as coisas sejam diferentes dessa vez, não podemos agir de qualquer jeito. Temos que ter cautela.

— Bem, isso fica a seu critério decidir — disse Liz. Suas pernas cruzadas faziam pouco esforço para ficarem cobertas. Ela estava testando o Padre, que nem sequer olhou para ela. — Quando precisarmos, os portões estarão emperrados, os alarmes de aproximação desligados e as luzes das torres apagadas.

— O que te garante que seu contato fará o que precisamos? Ele não é um fiel. — perguntou o padre, olhando para as hélices giratórias de seu cajado. Às vezes Liz achava que sua mente ia para outro lugar, bem longe.

— Não é — disse ela, saboreando as palavras que diria a seguir. — mas ele é um Rococó.

O Padre arregalou os olhos, e sorriu de volta.

— Bom, isso muda as coisas — disse ele — Aproveitando, você tinha uma tarefa para além da espionagem. Conseguiu concluir?

—Ah, tenha certeza que sim — disse ela, sorrindo e brincando com uma bala de fuzil nas mãos.


Cores, imagens, objetos, ferramentas! Mayara estava flutuando de empolgação. O grupo de Salvadores guiou as garotas por dentro de uma estrutura enorme que compunha uma série de estabelecimentos comerciais dos antigos humanos. A maior parte estava totalmente arruinada, tomada por pó, sujeira e até algumas plantas. Porém, em várias dessas lojas ainda era possível encontrar muitas coisas. Tudo que era de plástico estava relativamente inteiro. Havia muitos objetos feitos de polímeros ou metal que resistiram ao tempo. Tudo que era de madeira, porém, estava deteriorado. Alguns desses objetos ainda mantinham sua forma original, podendo ser resgatados para observação e, se descoberto sua função, poderiam ser replicados em materiais atuais, mas a maior parte se desmantelava ao toque.

Os polímeros usados na fábrica de fachada dos Salvadores de Memórias era, em sua maior parte, vindas de materiais naturais. Os Salvadores trabalhavam com alguma proximidade com os Caliptro, a facção que produzia alimentos e plantas de maneira artesanal, escapando do controle e da produção da Agrosanto, a empresa de alimentos da Igreja. Eles forneciam as fibras, celulose e outras substâncias para formar ácido lático e fabricar o poliácido lático, e em troca, os Sapiocultivadores dos Salvadores de Memórias entregavam sementes e outras plantas encontradas na superfície, além de ferramentas e objetos produzidos por eles. Ninguém sabia como os antigos faziam o plástico ancestral, então houve adaptações na produção de Santa Cova.

Giba, Toco e Mochila foram para uma livraria que iam em toda expedição que faziam, aproveitando para resgatar livros e materiais que ainda não tivessem recuperado. Era uma função demorada, mas esperavam que dentro de três anos esvaziariam o local. Era uma livraria muito grande, com dois andares cheios de prateleiras, que por sua vez estavam cheias de livros. Eles sabiam que aquele lugar era conhecido como “Loja de livros”, e tinha uma função comercial. Então, diferente das Bibliotecas, os exemplares ali se repetiam muito. Muitos dos livros eram coisas inúteis, como técnicas de emagrecimento, ou maneiras de ganhar mais dinheiro. Para os moradores de Santa Cova, acumular riquezas ou perder peso eram coisas igualmente inalcançáveis. De todos os livros, o que mais intrigava Giba e era seu objeto de interesse pessoal, eram os livros sobre saúde na velhice. Ele adorava as capas com humanos pequenos, enrugados e de cabelos brancos. Para ele, a ideia de humanos vivendo mais de sessenta anos era algo impossível. Saber que aquilo era comum no Mundo que Passou deixava o homem num misto de curiosidade e tristeza. Mochila era um aficcionado por literatura, explorando os livros de historias romanticas e fantásticas com afinco. Ele trazia uma lista escrita a carvão dos títulos que já tinham no esconderijo para saber com o que encher suas mochilas. Toco era o mais pragmático. Ele carregava os pedidos dos outros Salvadores e tentava encontrar os exemplares que outras pessoas solicitavam. Naquela noite, Raquel havia encomendado livros sobre Termodinâmica de Fluídos, e outros membros da facção queriam coisas sobre botânica, medicina e faça-você-mesmo.

Enquanto os membros mais antigos do grupo mergulhavam na livraria, as meninas foram liberadas para explorar o espaço todo com cuidado e silêncio.

Cada uma foi para um canto, guiada por seus interesses pessoais. Mayara estava se refestelando em uma loja de brinquedos. As pessoas realmente usavam aqueles monstros de plástico para brincar umas com as outras? Ela vagou pelo lugar, construindo perguntas sobre perguntas. Ela viu miniaturas das gaiolas feitas de plástico e metal, surpresa com o quanto as pessoas gostavam delas. Talvez por isso existiam tantas delas pelas ruas. Existiam inúmeros tipos de simulacros de bebês e até de crianças de diferentes tamanhos. Para Mayara, era assustador. Imaginar que os antigos compravam crianças em lojas parecia para ela uma realidade doente onde ela não queria viver. Não que seu mundo fosse bom, mas pelo menos as pessoas eram de verdade. Ela se afastou rápido daquela sessão, com medo de que alguma daquelas criaturas ganhasse vida. Havia uma infinidade de coisas imitando animais, pessoas em miniatura, veículos e armas, além de vários tipos de bolas, todas murchas e deterioradas. A placa que ia acima delas sugeria algum tipo de jogo, mas Mayara perdeu o interesse rapidamente.

Depois, ela foi para uma loja de utensílios domésticos, e muito daquilo fez menos sentido ainda para ela. Os antigos humanos realmente usavam todas aquelas ferramentas para fazer sua própria comida e para guardar seus alimentos? O que era uma geladeira? E pra que diabos servia um sacador de rolhas? O que era uma rolha? Era tudo muito irreal. Maravilhoso, mas irreal. A sensação de descoberta de um mundo completamente novo era animadora, mas a diferença da maneira como aquelas pessoas viviam para a vida que todos levavam no subsolo era colossal. Porque pessoas que tinham uma vida tão boa entraram numa guerra que destruiu o mundo?

Ela estava extasiada. Saber ler abriu um universo inteiro diante dela. Mayara passou quase duas horas entre essas duas lojas, lendo embalagens, coletando objetos, tentando descobrir suas funções. Sua mente voava tentando imaginar como era a vida daquelas pessoas. Elas não precisavam trabalhar? Elas podiam ter animais de estimação? Ela se lembrou de Lixo, seu rato, que havia ficado para trás em sua toca. Esperava que ele conseguisse se virar.

Passadas duas horas e vinte e dois minutos, todos se reuniram na praça daquele local. Cada uma das meninas estava carregando bolsas cheias de cacarecos e papéis. Os Salvadores estavam carregando bolsas e mais bolsas de livros, revistas e um tipo de publicação chamado Jornal, usada para entregar informações conhecidas como “notícias” diariamente. Mayara se perguntava o que poderia ter de tanta novidade que precisava ser informado todo dia. Exceto por sua mudança para a sede dos Salvadores, a vida dela não tinha tanta mudança.

Com todos ali, Giba orienta:

— Faltam três horas e cinquenta e sete minutos para o nascer do sol. Como a noite está clara e sem nuvens, é difícil que os bandeirantes estejam aqui em cima, então podemos explorar um pouco mais nos carros em nosso caminho de volta. Mas quando o sol nascer, temos que estar lá embaixo, combinado?

— O que é um carro? — perguntou Mayara.

— São as gaiolas — respondeu Manu. — Eles chamavam de carro porque usavam para se carregar de um lado para outro.

Mayara ficou em silêncio, pensando em palavras e nos significados delas.

O grupo então saiu do grande prédio e voltou para as ruas. Era possível observar resquícios de desenhos, palavras e formas pintados em paredes por todo o trajeto. As facções costumavam usar letras específicas para demarcar lugares que já haviam explorado. Ela passou por um grande paredão onde estava escrito em enormes letras finas e pontiagudas a palavra Caliptro, demarcando aquele como um território explorado pelos cultivadores, bem próximo do Grande gerador eólico. Era o maior de todos os geradores, responsável por um terço da energia gerada pelo sistema eólico. Um verdadeiro colosso, extremamente importante para os túneis. Ver aquela máquina parada fez ela se imaginar subindo para arrumá-lo, trazendo à sua mente as imagens do dia do acidente. Ela chacoalhou a cabeça. Não deixaria essas memórias tirarem sua felicidade.

No caminho, mexeram em alguns carros, observaram mais algumas lojas e ruínas, e se prepararam para voltar para o subsolo. A maior parte dos carros continha objetos muito parecidos. Quase todos tinham um cilindro vermelho abaixo do banco que tinha um volante. Manu explicou para Mayara que era ali que a pessoa que conduzia o carro se sentava. Ela pensou em carregar um daqueles cilindros, mas os que não estavam totalmente presos, eram muito pesados.

Muitos daqueles carros tinham esqueletos dentro. A morte era algo constante nos túneis, então esqueletos e cadavéres eram uma visão comum para todos em Santa Cova. O que chamou a atenção da garota era o fato de quase todos estarem em grupo. Alguns poucos estavam fora dos veículos, já moídos e desmontados pelo tempo. Mas nos outros era possível ver vários daqueles esqueletos em grupo de três e quatro pessoas. Esqueletos pequenos sugeriam a presença de crianças também. Julinha disse a Mayara que em suas leituras, principalmente em jornais, descobriu que uma doença chovia do céu, e matava as pessoas quase instantaneamente. A máscara que usavam deveria protegê-los de qualquer resquício daquela maldição, mas Giba tranquilizou a todos que a doença ancestral não existia mais fazia muito tempo. Mais uma mentira da Igreja.

Mayara ia à frente do grupo. Ela sempre quis ver as gaiolas de perto, então aquilo era um parque de diversões para a garota. Começou a verificar os veículos buscando algum padrão: primeiro, os que tinham formatos parecidos, depois, os que tinham alguma cor ainda e depois os enferrujados. Em seguida separou os carros entre os que tinham esqueletos e os que não tinham. Ela não queria desarrumar as ossadas, então evitava mexer nestes veículos. Giba avisava para que ela não se afastasse muito do grupo. Ela fazia um joinha para ele, se aproximava dos companheiros, para minutos depois, estar lá na frente outra vez. Ela nunca se divertiu tanto, quase podia sentir seu cérebro funcionando a toda potência para registrar tudo que estava vendo, sentindo, cheirando.

Em sua empolgação, saiu da rota estipulada depois de ver através de um beco um veículo enorme, com dezenas de lugares, que ela com toda certeza precisava vasculhar. Por onde estava não tinha como chegar nele, então ela deu a volta pelo prédio demolido, ansiosa para ver aquela imensa gaiola de frente. Ela pensou ter ouvido Giba gritar seu nome, mas ao virar uma esquina, enfiou o rosto com muita força em algo duro. Ela se desequilibrou e caiu sentada, levando uma mão à testa. Ao olhar para cima, viu um soldado bastante alto com a mão no peito sobre seu colete de kevlar, no local onde ela havia dado a cabeçada. “Deve ter doído nele também” pensou ela rapidamente antes de ser tomada pelo horror da situação, o entendimento de que havia dado de frente com um bandeirante. Pelas roupas, ela percebeu que ele não era um simples soldado, nem mesmo era da Baixa Paróquia. Ele trazia uma estola roxa sobre seus ombros, o rosto era coberto por uma máscara completamente branca, com aspecto perolado, seu visor dourado perscrutando na escuridão. Suas pernas tinham um ângulo estranho, e ele trazia uma arma muito diferente das pistolas que estava acostumada a ver nas mãos dos bandeirantes comuns. Naqueles milissegundos onde parecia que o tempo havia parado, ela desceu seu olhar até uma pequena faixa no peito dele, onde ela viu um nome que nunca tinha lido, mas cujo som, em sua voz mental de leitura, provocou nela um calafrio absurdo e uma vontade de sair correndo: Tavares.

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