Capítulo 8 – Chegada em Santa Cova

Kaluanã se forçou a adormecer, utilizando um treinamento de respiração dos Caçadores para pegar no sono, eficiente mesmo quando estavam ansiosos ou nervosos. Ele acordou no raiar do dia, enquanto Pedro e Sandro saíam para vasculhar suas zonas designadas, e Terena se preparava para descansar, após seu turno de vigília. No outro lado do acampamento, Arnaldo e Beto já estavam ouvindo música e fazendo seu desjejum.

Ele ficou um tempo observando a capivara’i se arrumar para dormir, tirando seus muitos aparatos e fazendo alongamentos. Ela era sua melhor atiradora, inigualável. O fato de ela preferir o arco tático ao invés de fuzis era intrigante, mas ela sempre apresentou os melhores resultados em missões, independente da arma que usasse.

— Se continuar me olhando tanto a Luana vai ficar com ciúmes. — disse Terena, de costas para ele.

— Desculpe, estava com a cabeça longe. Mas ei, eu sou um cara ético, não me relaciono com colegas de trabalho. — disse Kalu, rindo.

Terena levantou uma sobrancelha.

— Luana é sua colega de trabalho.

Kalu pareceu afetado pela resposta.

— Ei, mas a gente se conheceu antes do trabalho. Bom, na realidade foi durante a academia de treino, mas isso não vem ao caso.

Eles riram. Terena era uma mulher dedicada e leal, que fazia tudo pela corporação. Depois desse momento de descontração, era hora de trabalhar.

— Soldado, relatório. — disse Kalu, pegando uma prancheta e se preparando para anotar. Ele ainda trazia um sorriso no rosto.

— Positivo. Movimentação às 11 e às 3 horas, nordeste. Ouvi sons de máquinas, mas não consegui identificar a origem. Também percebi movimento, mas não identifiquei a origem. Marquei no projetor digital alguns pontos que poderiam ser entradas camufladas, já joguei no drive e os soldados vão verificar agora pela manhã. Detectei também traços de radiação, então atividade Sinistra não está descartada. Calculando a quantidade de prédios, acho que os relatórios da inteligência podem estar equivocados, com os números de possibilidades de entrada muito baixos. As imagens dos drones não conseguem dar conta da imensidão desse lugar. Além disso, percebemos pelas leituras que seis geradores eólicos apresentam problemas, e um deles está totalmente parado, portanto são pontos de interesse. Concluindo, o total de quadrantes passa dos duzentos, eu acho. Isso faz com que a gente precise de mil Caçadores ou soldados para poder verificar tudo.

— Não temos mil caçadores — disse ele, sem tirar os olhos do papel. — Vamos traçar uma rota e a partir da chegada dos outros Caçadores, vamos começar a fazer missões em grupo. Jacarandá está enviando um destacamento pra nos orientar e repassar informações. Eles já tentaram muitas coisas, sem sucesso, então esperam que a gente possa trazer alguma novidade.

— Sim senhor — disse ela, triste.

— O que foi, Terena?

Ela ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder.

— Uma das crianças mortas era filha de uma amiga minha. Ela era uma fabricante de doces. A menina ajudava na preparação do chocolate e no corte das frutas, e depois ia brincar. Elas não tinham nada a ver com nada. Minha amiga está destruída, mal consegue levantar da cama. Eu não aceito o que aconteceu. Eu me coloco no lugar dela e fico pensando nas minhas filhotinhas.. Fico imaginando como eu ia estar me sentindo se alguma das minhas crianças tivesse sido levada, ficasse desaparecida por dias, e voltasse morta. Eu ia querer incendiar o mundo. A gente precisa fazer alguma justiça por eles, Kalu! A gente tem essa obrigação.

Ele a observou em silêncio, enquanto ela chorava e limpava as lágrimas.

Terena era mãe de cinco crianças. Seu parceiro havia morrido em missão anos atrás e ela escolheu criá-las sozinha, mas o trabalho a obrigava a ficar longe delas por longos períodos.

Kalu pegou suas mãos.

— Nós vamos fazer tudo que pudermos, eu te prometo. Vamos garantir que mais nenhuma criança de Cambará, não, nenhuma criança da Nação seja vítima dessas pessoas, tá bom?

Ela balançou a cabeça positivamente, agradecendo.

— Só quero terminar essa missão e ir pra casa ver minhas meninas. — disse, finalmente deitando na rede.


Momentos depois, Kaluanã vagava pelas ruínas investigando cada canto possível. Ele triangulou com Pedro e Sandro, organizando uma rota que os levasse a pontos diferentes e pudesse criar um caminho circular, para se encontrarem ao final do percurso. O vento assobiava entre prédios desmoronados, vigas de aço e vidraças estilhaçadas. A ferrugem devorava placas e carros. Kalu sempre gostou do design da maioria dos veículos dos primogênitos, e em nenhum lugar ele havia visto uma variedade tão grande quanto em Santa Cova. Centenas de milhares desses veículos definhavam nas ruas, encostados e batidos, e em alguns deles jaziam esqueletos dos primeiros filhos, se desfazendo pela ação do tempo, mortos enquanto tentavam fugir. Aquela cidade não passava de um cemitério de concreto e ferro, que escondia em seu interior algum tipo de sociedade primitiva que escravizava e perseguia.

Ele vagava em silêncio, procurando qualquer sinal que pudesse servir de indicação de atividade Bandeirante. Atravessou os escombros de um prédio que havia tombado sobre outro, criando uma ponte instável através de uma rua. Esperava que a vista do alto pudesse lhe trazer alguma informação diferente. Cada passo fazia o chão gemer, pedaços de concreto se soltavam e despencavam no abismo abaixo. Ele saltava paredes e muretas com facilidade, usando sua lança com as lâminas retraídas para acertar seu equilíbrio. Apesar de ranger, o prédio não desmoronou.​

Do outro lado, em uma abertura no segundo prédio no nível do solo, encontrou um parquinho. Estava devastado, mas era possível discernir os brinquedos, e alguma cor ainda se escondia por baixo da sujeira. Escorregadores tortos, uma gangorra quebrada e um balanço enferrujado pairavam ali, esquecidos pelo tempo. “Quantas vidas perdidas”, pensou. Ele encontrou uma boneca de plástico e a pegou nas mãos, observando o rosto chamuscado e sujo, e então a colocou de volta entre os destroços. Os estudiosos de Carnaúba iriam adorar explorar aquele lugar depois de sua libertação. Já ele, ficava triste. A perspectiva da ruína sempre o assombrava.

Ele testou a entrada de todas as estações de metrô que encontrou, mas estavam completamente barricadas. Era possível ver o concreto que vazou de dentro para fora, indicando que essas passagens foram fechadas internamente por quem quer que tenha sobrevivido ali.

O silêncio era incômodo. Ele sempre odiou a expressão “silêncio gritante” mas agora parecia fazer sentido. Não era a calmaria de uma tarde de descanso, onde apenas o barulho do vento nas árvores e os sons de pássaros ecoavam na distância. Era um tipo diferente de quietude. Aquele lugar não estava adormecido em descanso, estava adormecido em óbito. O único som que ouvia era o que ele próprio fazia, além de ecos dos cadáveres arquitetônicos que se lamentavam.

Ele entrou em cada local que um dia foi um estabelecimento comercial, procurando porões, alçapões ou aberturas secretas que pudessem indicar uma passagem que os levasse direto ao subsolo. Em uma dessas lojas, ele encontrou algumas coisas interessantes, como objetos de uso em jardinagem, ferramentas, carrinhos de mão, e sacos plásticos de ração. Nestes sacos, figuras de animais felizes estampavam a embalagem. Kalu sempre quis saber como exatamente aconteceu a criação dos Sherat’i. Ele sabia que por milênios, as pessoas se separavam entre humanos e animais, e por milênios, os chamados “animais” não tinham a mesma complexidade cognitiva que tem agora. Hoje, essa separação não existe mais. Os animais viraram Sherat’i, e os poucos humanos que sobreviveram se tornaram os Primeiros Filhos. Em algum lugar dessa transformação, existe o ponto inicial. Ele gostaria muito de descobrir.

Perto do balcão, havia um cartaz grande, com vários primogênitos representados. Usavam uniformes de trabalho, estavam sorrindo e carregando pranchetas, canetas, cilindros de projeto. Um deles portava uma grande tesoura preta, parecida com algumas que estavam ali naquela loja. O cartaz estava escrito na Primeira Língua, mas Kalu ainda conseguia ler. A frase era algo como “Estão abertas as inscrições para voluntários estelares!” e mais abaixo, “Envie seu currículo para ser levado ao cosmos!”. Em letras pequenas, era possível ler “Quantidade de vagas limitada pela ocupação total de cada barcaça cósmica, sujeita a mudanças”, e um selo no canto direito trazia a inscrição “Governo da Nova República Popular do Brasil”. Kalu sabia que esse era o antigo nome da Nação, e ele não gostava. Essa referência ao fogo sempre o incomodou. Durante as Guerras de Unificação, o fogo era usado como arma, para desentocar trincheiras e queimar corpos. Além disso, antigos latifundiários incendiavam as florestas para a criação de rebanhos, destruindo tudo em seu caminho. Para ele, o fogo tinha um significado ruim. Ele preferia o nome adotado após as Guerras de Unificação, Nação dos Ipês. A antiga bandeira era bonita, encontrada em vários sítios arqueológicos, suas cores inspirando as cores da bandeira atual e das Regiões, mas hoje os símbolos eram muito diferentes, com novos significados e novas aspirações. Mil anos se passaram, afinal. Muito da antiga sociedade dos primogênitos também foi recuperado e mantido, e servia de base para o que a Nação construiu para seu povo, mas Kalu sentia que eles tinham conseguido ir muito além do que os humanos jamais sonharam, e hoje a Nação era um lugar ainda mais desenvolvido e justo.

Enquanto procurava atrás do balcão, encontrou uma fotografia. Haviam três adultos olhando para a frente, dois machos e uma fêmea, e duas crianças em idade de filhote em seus colos, e apenas por suas roupas, não era possível definir o gênero. Estavam sorrindo e bonitos, parecia uma ocasião especial. Na parte de trás da foto, estava escrito Batizado do Joaquim, 01/06/54. Ele observou a imagem longamente, percebendo os detalhes. Estavam em um sofá, que tinha uma manta colorida sobre ele. Uma mesinha de madeira trazia uma planta ornamental. Quadros com antigas figuras religiosas pendiam das paredes. Mais pessoas estavam na parte de trás da foto, mas não estava nítido. Ele reconheceu a bandeira antiga da NRPB. Encostados na parede, três rifles longos descansavam dentro de uma caixa de vidro cadeada. No teto, um ventilador antiquado repousava, e a luz do sol entrava pelas janelas. Kalu suspira, entristecido por tudo que foi perdido. Parecia uma sociedade saudável e uma família feliz. Ele coloca o retrato no lugar em que estava. Não se sentia no direito de carregar aquela lembrança.

Um barulho alto soa de uma porta que vem de trás da área comercial. ele ativa as lâminas da lança e entra para averiguar. Caído no chão, de pernas para cima, um mafagafo se contorcia para levantar. “Um Sinistro”, pensou. Era pequeno, sua altura não alcançava os joelhos de Kaluanã, mas ao vê-lo, a criatura rolou para o lado e gritou muito alto, expondo todos os seus dentes e presas, garras retráteis e asas caídas. Seus olhos flutuaram de sua órbita, e ele saltou sobre Kalu. O caçador pulou para trás, e a criatura atacou o espaço vazio onde ele estava anteriormente. A saliva que caiu de sua boca borbulhou no chão. Kaluanã agiu rápido, e o pequeno monstro se virou apenas para receber a lança em seu crânio, tremendo rapidamente antes de cair morta.

Ele se preparou e olhou ao redor, procurando mais criaturas, mas não haviam outras. Estava alerta, nunca subestimando um sinistro por ser pequeno. Os caçadores sabiam da possibilidade da presença de sinistros em Santa cova, mas agora era uma certeza. Um perigo a mais para os caçadores terem de lidar.

Era hora de voltar para o grupo. Kalu apertou um botão em seu transmissor e avisou aos colegas que havia perigo. Ele sai da construção pulando uma janela, e ao cair na rua, parte do concreto cede. Inclinando-se para frente, joga seu peso em uma cambalhota, parando do outro lado da cratera que se abriu. Após respirar fundo algumas vezes e se recompor do susto, dá a volta para observar o buraco aberto, na esperança de ter encontrado uma passagem para baixo por acidente, mas tudo que encontra são canos de esgoto secos, terra e escombros.

Todos os membros do grupo voltaram para o acampamento. O plano era fazer a troca de informações dentro da cidade, mas o local estava comprometido. Além disso, um destacamento de combatentes de Jacarandá estava vindo para encontrá-los.

Perto da hora marcada, uma nuvem de poeira assomou na distância, e ao se aproximar, foi possível ver um grupo de 5 motocicletas chegando ao acampamento. Kaya, a harpia’i que vinha dando assistência ao grupo de Kaluanã, voava à frente deles guiando os motociclistas. Eles desembarcam dos veículos, de variados tipos, com motores barulhentos em arcaicos sistemas de combustão. Alguns vieram em dois sobre a moto, e outros estavam sozinhos. Alguns deles estavam vestidos de maneira mais casual, com óculos de sol e camisetas sem manga, além de bermudas ou chinelos. Definitivamente, não pareciam ser combatentes. Junto deles, chefiando o destacamento, estava um pequeno grupo de Maltas Guanabaras. Especialistas em combate corpo a corpo, portavam nos pés botas eletro-propulsadas. Sua arte marcial, a capoeira, era comum por todo o território da Nação, mas em Jacarandá ela era treinada de maneira aplicada. Para muitos, era apenas um esporte, mas para eles, era uma forma de combate tático e especializado. O mais novo dos maltas, um Onça’i de dois metros de altura, se aproximou de Kaya, puxando a Caçadora de elite para um abraço claramente desconfortável para ela.

— Mestra Kaya! Quanto tempo né? Aí, eu falei pra tu entrar em contato, mas você ficou de caozada.

— É bom te ver também, Manoel — disse ela, arrumando suas penas e desamassando as suas roupas. — Você é o líder hoje?

— É pô. Pega a visão: o Mestre Araribóia achou que pra dar o papo pra vocês, eu dava conta, mesmo sendo novato. Eles estão arrumando a tropa pra descer aqui assim que a gente tiver identificado as paradas. Bora trocar essa idéia? Tá todo mundo aí?

— Sim

— Já é, formou.

O grupo se organizou em torno de uma mesa retrátil retirada do caminhão, e os Maltas abriram um mapa da região conhecida de Santa Cova. Abaeté soltou um suspiro, vendo o tamanho do lugar. Eles estavam representados no mapa por pontinhos laranja e amarelos. Em comparação com eles, a cidade era gigantesca.

Manoel, o líder daquele grupo de Jacarandanos, explicou muito do que já era sabido. Eles haviam identificado que os geradores eólicos faziam parte do sistema de abastecimento energético de Santa Cova, mas evidências mostravam que poderiam existir civis no subterrâneo, e por isso eles não destruíram os geradores. Jacarandá montou um esquema de observação, e tinham informações de que os bandeirantes só saíam para arrumar os geradores durante a noite ou em dias muito chuvosos. Eles encontraram cadáveres frescos de pessoas com roupas de manutenção, indicando que os soldados não recuperavam corpos de pessoas que se acidentavam nesses consertos. Além disso, devido aos horários e condições climáticas, não haviam sido encontradas ainda as passagens usadas por Santa Cova para sair do solo. Os Caçadores ficaram surpresos com o nível de detalhes e mapeamento feito por Jacarandá. Kaluanã ficou preocupado. “Se mesmo eles, com tanto tempo e recurso não conseguiram encontrar as entradas, como nós vamos fazer isso?”. Abaeté, o tamanduá’i engenheiro do grupo de Caçadores, sempre muito curioso, apontou para uma área sem marcações próxima ao centro do mapa:

— Essa parte sem registros, é o que?

— Ó, esse lugar aí a gente não consegue mapear, não. — disse um dos cachorro’i, cujo vulgo era Ran, de jeitão bem malandro e óculos escuro. Estava sem camisa e na cintura tinha duas pistolas de energia. Ao lado dele, outro Cachorro’i, de vulgo Dandan, concordava com a cabeça, de braços cruzados e expressão fechada. Eram a dupla de Crias da Sapukai que acompanharam os Maltas. — Tá sempre na neblina, cheio de nuvem, deve ser alguma parada de camuflagem, saca? A radioatividade lá é braba também, fortona mesmo.

— Real, mó forte — disse Dandan, sem descruzar os braços.

— A gente desconfia que tem um “quegêzinho” ali, já que é a parte mais alta da cidade. Mas papo reto? Ninguém sabe meu parceiro. — completou Ran.

Conversas paralelas se iniciaram ao redor do mapa, com todos apontando ou calculando ideias. Kaluanã ficou em silêncio, com a mão no queixo. Manoel percebeu que ele estava planejando algo.

— Coé chefia, dá o papo. — disse o malta.

— Acho que não devemos focar nessa parte alta por enquanto. Nosso contingente é pequeno e estamos aqui em uma missão de reconhecimento. Acho que o melhor caminho é armarmos pontos de observação e tocaia no entorno desse gerador que está parado, pois tudo indica que será o próximo a ser consertado. Armamos a arapuca, esperamos a movimentação e seguimos. Nossa missão não é de combate, é descobrirmos um caminho. Todos de acordo?

Manoel riu e cutucou Kalu.

— Aí chefe, cê só tem que cuidar com aquela vacilona ali, porque eu tenho certeza que essas hora ela já tá cheio de lorota na cabeça querendo investigar aquele pico lá sozinha.

Kaya pareceu ofendida e envergonhada.

— Me respeita rapaz! Eu não iria me arriscar sozinha desse jeito — disse ela, guardando sua máscara de radiação discretamente. Ela agitou suas enormes asas, parecendo irritada — Eu já tinha olhado aquele lugar, só ia confirmar uma coisa que fiquei na dúvida. Mais do que apenas uma tempestade localizada, aparentemente existe algum tipo de cúpula com refração visual, quase como se fosse uma redoma de espelhos. O que quer que exista naquele pico, os bandeirantes não querem que saibamos.

— Eu sabia que tu já tinha dado um confere lá, é bem a tua cara mesmo. — disse Manoel, tentando irritar Kaya.

Kalu ergueu uma sobrancelha.

— De onde vocês se conhecem mesmo?​

— De uma missão externa — respondeu Kaya, séria. — Investigamos uma atividade Geiger há um tempo atrás, e esse aí fazia parte da equipe. Era uma equipe multiregional. Só me deu problema, apesar de ser um bom combatente.

O capoeirista riu.

— Foi mó barato, fala tu.

O grupo continuou organizando os pormenores e se preparando para a emboscada. Pedro trouxe informações sobre pegadas que pareciam com botas reforçadas, indicando atividade recente. Sandro disse ter encontrado traços da passagem de Sinistros e resquícios de radiação, confirmados pela criatura que Kalu matou. No entanto, não havia sinal de atividade dos Filhos de Geiger, o que poderia significar que aquelas criaturas podiam estar vivendo ali de maneira independente.

O resto do dia foi de confraternização entre as forças e preparo da missão. Manoel passou o dia inteiro indo atrás de Kaya, fazendo perguntas e irritando propositalmente a poderosa líder de Caça. Kalu e Sandro se sentaram com os outros combatentes Maltas e Crias, e de maneira divertida, trocaram conhecimentos e tomaram terere.


Alheios às tropas sherat’i que se organizavam na superfície, um grupo de pessoas trabalhava para organizar sua próxima expedição ao mundo morto. Giba e Raquel trabalharam para treinar Mayara, Manu, Fabi e Julinha nos modos de furtividade e nos aparatos de recuperação dos Salvadores. Fabi tinha comprado um braço hidráulico, e estava sofrendo para se adaptar a seu novo membro. Ela ainda estava muito abalada pelo acidente no gerador.

Salvadores de Memórias eram um grupo clandestino de pessoas que se escondia nos escombros e túneis de Santa Cova para tentar recuperar itens e conhecimentos do Mundo que Passou, o Mundo Morto, ou apenas superfície. Seu trabalho consistia principalmente em recuperar livros, revistas e objetos úteis que pudessem ser replicados. Sua fachada era uma fábrica de polímeros e resinas, onde eles podiam criar itens para vender nos túneis, escondendo as atividades ilegais de tentar recuperar e reproduzir o que encontravam nas expedições.

Gilberto era um Vaga-ruína, um especialista em explorar os escombros e prédios destruídos da superfície. Eles eram treinados em técnicas de parkour, escaladas e camuflagem, pois tinham que estar preparados para fugir e se esconder no caso de ver algum monstro ou bandeirante. Eles também precisavam aprender a combater e lutar com as armas que tinham disponíveis, como lâminas, arcos e estilingues, além das poucas armas de fogo roubadas dos soldados da Baixa Paróquia. Já Raquel era uma Curadora de Fragmentos, responsável por catalogar, organizar e arquivar tudo que os Vaga-ruínas encontrassem no Mundo Morto. Os curadores treinavam principalmente criptografia, reconstrução, engenharia reversa, e análise de símbolos.

Vários dias passaram com as garotas aprendendo a conviver em grupo naquele novo local. Elas treinavam ou trabalhavam na fábrica dos Salvadores cerca de dez horas por dia, o que ainda era muito melhor que o tempo na Luminosil, mas ainda era bastante cansativo. No tempo que sobrava, elas aproveitaram pra aprender tudo que podiam no enorme acervo dos Salvadores. Raquel dava aulas de autodefesa e combate para elas, além de lições para escapar de cordas e agarrões. Gilberto introduzia elas aos outros membros da facção, e ensinava o que se sabia da história do Mundo que Passou. Eles sabiam que havia acontecido uma guerra de proporções inimagináveis, e que muitos países haviam desenvolvido programas espaciais e levado seus habitantes para morar nas estrelas.

As garotas se reencontraram no dia da subida. Cada uma delas tinha se apegado a uma parte do trabalho no esconderijo, ficando algum tempo sem se falar. Enquanto se arrumavam, eles conversavam.

— Ai, eu to bem ansiosa — disse Julinha, arrumando a bolsa — espero encontrar mais livros sobre o Mundo Morto, parece tudo mentira que o mundo era tão diferente antigamente!

Giba e os outros também estavam se preparando para a missão.

— Livros e outros materiais impressos deixa com a gente, vocês estão indo pra explorar o ambiente — disse ele, num tom que deixava pouco espaço para discutir.

Julinha se interessou especialmente sobre esse assunto, devorando tudo que encontrava sobre cultura e história da humanidade antiga. Mayara se aproximou do pessoal que estudava as ferramentas e objetos, se aproximando mais de Raquel e Fabi enquanto aprendia sobre mecânica, eletroeletrônica e química.

— Por mim tudo bem. Tomara que tenha algum lugar com bastante ferramentas, fios, componentes! Mesmo que tudo esteja enferrujado, quem sabe dá pra salvar alguma coisa. — disse ela, terminando de fechar sua bolsa. Sua habilidade pregressa ajudava que ela se sentisse mais à vontade estudando esses objetos, mas ela percebeu, convivendo com os Salvadores mais antigos, que ainda tinha muito o que aprender.

Fabi ficaria com Raquel, pois seu braço ainda estava doente e ela precisava de mais tempo para se adaptar. Ela tinha pego gosto pelo trabalho dos Curadores, então não estava tão triste por não poder subir. Ela tinha pesadelos com a queda, e a superfície não parecia um lugar tão importante para ela nesse momento. Giba levaria Mayara, Julinha e Manu, além de mais dois Vaga-ruínas experientes. Eles iriam explorar as ruas no entorno da estação mais próxima, conhecida apenas como Luz, e de lá, fariam um trajeto circular, entrando em estabelecimentos e prédios. Carregavam consigo armas, lanternas e muitas bolsas vazias, e esperavam poder enchê-las de artefatos.

— Porque nós não subimos durante o tal “dia”, se é justamente a “noite” que os Bandeirantes sobem? — Perguntou Manu, sua cara maníaca um pouco mais estranha que o normal, com olheiras profundas devido ao cansaço e falta de sono.

— Bom, nós nunca subimos de dia. Temos indícios que uma luz poderosa existe lá fora, e encontramos vários materiais dos antigos dizendo que essa luz chamada sol pode queimar nossa pele e causar doenças.

Mayara arregalou os olhos, impressionada.

— Caramba Giba! A gente tá aqui um tempão e você não me falou que o Sol ainda existia! Todo mundo nos túneis acha que eles explodiram o Sol na época da guerra!

— Não tem como explodir o Sol — disse um dos Salvadores, Toco, que iria acompanhar o grupo. Ele estava fortemente armado. Era um bandeirante que desertou da corporação. Era um homem preto com postura e corpo de soldado, tinha uma barba longa e era careca. — O Sol é uma estrela, ele fica fora do planeta. Mesmo os antigos não tinham armas capazes de destruir algo assim.

— Mas então como as pessoas conseguem morar lá? — perguntou Julinha.

Mochila, o outro Vaga-ruína, respondeu.

— Morar nas estrelas é um modo antigo de falar. Os antigos foram morar em outros planetas, as estrelas são bolas de fogo, não da pra pisar nelas. — disse. Ele era gordinho, com cabelo liso e olhar esperto. Usava óculos e carregava a maior parte das bolsas.

Gilberto se justificou:

— Desculpa Júlia, eu não comentei nada porque não sabia que era uma dúvida de vocês. Eu deveria ter comentado. Esse conhecimento sobre o sol a gente não espalha porque sabemos que se as pessoas souberem, vão querer subir de qualquer jeito pra ver essa luz. E ai ou vão ser abatidos pelos bandeirantes ou vão ser mortos pela Doença, que é mais ativa durante o dia. Não queremos um massacre.

— Essa coisa da Doença não é só papo da Igreja? — perguntou Mayara.

— Olha — respondeu Giba — você vai ver a quantidade de ossadas que tem lá em cima. O que quer que tenha acontecido, matou muita gente. Então é melhor não arriscar.

Assim que terminaram de se arrumar, já era noite, e então os sete subiram. Dentro da grande biblioteca dos Salvadores, havia uma escada em espiral que terminava em um alçapão de ferro pesado, que foi empurrado por todos eles para abrir. Assim que todos passaram, a tampa foi fechada, e só seria aberta com o encaixe dos ganchos de aço que Toco carregava consigo. Lá em cima, eles deveriam fazer silêncio e traçar a rota combinada.

Saíram em um beco comum, bastante parecido com outros que Mayara havia visto. Mas foi só caminhar um pouco que o grupo saiu numa avenida, e as garotas ficaram de queixo caído. Mesmo na escuridão da noite, era possível ver as avenidas, cheias de gaiolas de ferro paradas atrás umas das outras, com esqueletos dos antigos dentro, além de árvores secas, placas, postes, realmente muita coisa. Mayara estava maravilhada. Ela nunca havia chegado perto de uma gaiola, e agora tinha no mínimo uma centena ao alcance de sua mão. Alguns estavam abertos, outros estavam lacrados com os restos mortais dos seus ocupantes ainda dentro. Ela percebeu que as gaiolas tinham rodas, parecidas com a das carriolas que usavam pra transitar nos túneis, e entendeu que as gaiolas eram usadas para trafegar naquela grande cidade. Ela não conseguia parar de sorrir, descobrindo um mundo novo que antes ela apenas podia imaginar, do alto dos geradores eólicos. Perto dali, o maior gerador se erguia, como um imenso fantasma branco no meio de um cemitério infinito.

Mayara saltitava, entrando em gaiolas e lugares com seus companheiros, ansiosa por tudo que estava prestes a descobrir. Ela nunca havia se sentido tão feliz assim.



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