Capítulo 6 – Gerador Eólico

A subida começa com uma escada de serviço de degraus metálicos, numa linha vertical que parecia interminável. Um pequeno elevador subia ao lado da escada, mas era exclusivo para os soldados da Baixa Paróquia que acompanhariam o conserto. Também levava as ferramentas e mantimentos para o dia de trabalho.

A equipe de manutenção tinha que chegar à superfície com suas próprias pernas, os degraus parecendo infinitos. Mayara, que já havia subido outras vezes, estava acostumada com o esforço e sabia o que esperar quando se inscreveu para aquilo. As outras meninas subiram gemendo e reclamando. Manu chegou a dizer que parecia melhor se soltar dali do que continuar subindo, o que gerou risadas de alguns deles. A garota a princípio ficou confusa com a reação, pois falava sério, mas Mayara pôde ver que ela estava sorrindo, feliz de ter “contado uma piada”.

Quando o elevador chegou ao topo, os soldados desembarcaram e destrancaram o alçapão por fora. Eles gritaram para a equipe colocar as máscaras de respiração e depois pegar suas ferramentas. Um a um, eles saíram dos túneis para o ar livre e puderam ver o deserto ruinoso da superfície. Normalmente, ao pensarmos em deserto, imaginamos uma infinidade de morros de areia, sem nenhum tipo de silhueta no horizonte. Aquele era um deserto diferente, um deserto vazio de vida, de movimento, de cores. Um exército de prédios e gaiolas de metal se espalhava por todo canto, corroído pelo tempo e pelo miasma. Era um lugar perigoso e infectado, e mesmo assim, Mayara o adorava. Sua mente viajava para muito longe, imaginando para que serviam algumas coisas que ela via, e de que maneira as pessoas viviam naquele lugar, antes da Chuva dos Mísseis.

O céu estava escuro e cheio de estruturas que nos livros eram chamadas de “nuvens”. Um vento forte soprava, chacoalhando os metais dos ganchos de sustentação e das roupas grossas de trabalho. Após todos subirem, os guardas ordenaram que os seguissem e começaram a caminhar. Quatro soldados acompanhavam a ação, dois na frente e dois atrás do grupo de manutenção. Carregavam consigo escopetas, pistolas e fuzis, e estavam sempre olhando para os lados, atentos a qualquer movimento.

Era possível ver os geradores eólicos a uma grande distância. Suas hélices giravam vagarosamente, como se estivessem à deriva na atmosfera, o vento fazendo força para movê-las. Se projetavam alienígenas contra a paisagem, sua fuselagem, cores e materiais claramente destoando de tudo que estava ao redor. Ninguém sabia quando eles foram construídos. Esse tipo de informação histórica não circulava pelos túneis, e tanto a Igreja, quanto os soldados, nunca falavam nada, se é que sabiam de algo. Boatos corriam que eles haviam sido presentes das divindades a quem a Papisa serve, antes de serem mortos pelos mísseis. A verdade é que isso não importava para a equipe de manutenção. Aquilo gerava energia, precisava de conserto, e isso era tudo.

A equipe foi dividida em duas. Cada dupla de soldados levou um grupo para um dos geradores. A equipe de Mayara foi formada por ela e as duas garotas, o que a deixou preocupada. Ela teria que liderá-las, o que certamente tiraria parte da diversão. Os padres-soldados deram as instruções e mandaram que elas subissem. Assim como na subida dos túneis, elas teriam que escalar degraus de metal que circundavam a estrutura. Dessa vez, porém, elas tinham um auxílio de uma cinta de segurança para o caso de escorregarem. Os ganchos estavam um pouco enferrujados, e a cinta parecia puída, mas aparentemente, daria para o gasto. As garotas têm de erguer o braço, prender o gancho, subir de três a quatro degraus, desprender o gancho, e prender acima novamente. Esse processo lento tornava a subida morosa, mas elas não queriam virar uma mancha no chão.

A subida levou quarenta minutos e vinte e sete segundos. Com a presença massiva de relógios pelos túneis, todos os habitantes de Santa Cova tinham uma capacidade surpreendentemente precisa de calcular o tempo. Chegando lá, era hora de descobrir o problema.

O vento soprava forte, fazendo a nacele oscilar discretamente a mais de 70 metros de altura. Lá dentro, o espaço era apertado, dominado pelo cheiro de graxa e pelo som metálico dos freios hidráulicos. As três se esgueiraram para dentro, se apertando enquanto trabalhavam lado a lado, cada uma com uma função definida, todas torcendo pra não cometer nenhum erro que fizesse aquele casulo explodir e elas choverem em pedaços lá do alto. Assim que entraram, todas começaram a contar os segundos, em voz alta. Permanecer falando era uma maneira das outras saberem que você não está tomando um choque. Se uma precisava falar algo, as outras continuavam a contagem.

— Travamento do eixo confirmado, ângulo ajustado para passagem do vento, podem prosseguir! — anunciou Manu, conferindo o sistema de bloqueio mecânico e acionando a trava de segurança. De lado, as pás não sofreriam ação do vento, e a energia estaria cortada.

Fabi, agachada diante do conversor de potência, abriu o painel com uma chave. Foi a primeira vez que puderam ouvir sua voz. O calor escapou em ondas, revelando o interior dos módulos eletrônicos.

— Achei o pepino. Olhem aqui — disse, apontando para o conector do barramento de corrente, com sinais de derretimento.

— Mau contato, superaquecimento, ou o espírito deixou o motor. A carniça da contatora, pra variar.

Mayara, a mais experiente do trio, já preparava as ferramentas.​

— Beleza. Manu, mantém os freios hidráulicos monitorados. Fabi, desmonta o conector e remove a carniça. Eu preparo o novo terminal.

Um rádio chiou, cobrando resultados. As três tomaram um susto. Não sabiam que aquilo estava preso ao uniforme: “porque estão demorando tanto?”

Mayara respondeu, mecânicamente:

— Ainda estamos operando o reparo. Vai mais uns 20 minutos.

Fabi desligou o circuito pela chave seccionadora, garantindo total segurança, dentro do que era possível. Com luvas isolantes, removeu o terminal danificado, enquanto Mayara lixava e ajustava o cobre do novo conector. Manu, com o multímetro na mão, fazia medições rápidas de continuidade para confirmar que não havia curto em paralelo. A contatora foi trocada.

— Leituras limpas. Sem fuga de corrente! A bichinha tá pronta pra voltar! — relatou ela, um sorriso dominando seu rosto..

— Perfeito — disse Fabi, encaixando o terminal novo no barramento. Mayara, ao lado, ajustou a catraca dinamométrica.

— Torqueando para 60 hz. Assim não esquenta de novo.

Minutos depois, os cabos estavam firmes, com a pasta condutiva aplicada para reduzir resistência. Manu puxou o megômetro e fez o teste de isolamento:

— Um gigaohm e duzentos. Dentro da faixa.

Mayara bateu com a mão engraxada no ombro de Fabi.

— Liga o bicho.

Fabi acionou o sistema. No monitor, as barras de tensão subiram de forma estável até atingir 690 volts. Manu sorriu.​

— Produção estabilizada.

Mayara pegou o rádio. Ela nunca o havia usado, mas seu formato parecia bastante óbvio.

— Pároco, reparação concluída. Energia voltando pra rede agora. Iniciando a descida.

Do lado de fora, as enormes pás começaram a girar contra o céu escuro. Dentro da nacele, as três trocaram um olhar cansado, mas pelo menos tudo havia dado certo.

Começaram então o lento processo de descida. Às vezes, descer podia ser mais perigoso que subir, porque com o serviço feito, o relaxamento pode deixar as pessoas menos atentas. Fabi foi primeiro, Mayara foi no meio, e Manu trancou a nacele, vindo por último.

Mayara aproveitava esses momentos para apreciar a vista. Elas eram obrigadas a descer devagar, então, era o único momento disponível para contemplação. Ela gostava de olhar os prédios e casas. Havia trilhos em determinadas partes, muito parecidos com o que se usava nos túneis. Alguns prédios ela percebia que tinham uma fachada completamente feita de vidro. Outros, eram mais rústicos, com janelas bonitas. Todos quebrados e sujos. Por baixo da sujeira, era possível ver letras, números, e até imagens. Era difícil ver na escuridão, pois não havia luz alguma para além das lanternas de corpo que todos ali usavam. Mesmo assim, era lindo. Árvores estranhas balançavam na escuridão, e barulhos vinham de dentro da cidade morta. Todas esperavam que fosse apenas metal e madeira rangendo na noite fria. E tinha alguns lugares, alguns poucos lugares, que ninguém ousava olhar. Perto de algumas portas muito grandes, que davam para antigas escadarias lacradas que levavam ao subterrâneo, havia uma massa disforme e pontilhada, que de longe, parecia ser uma espécie de pano cobrindo de branco a sujeira escura das construções. Mas se você tivesse um olhar bom, e acertasse bem os olhos, poderia ver que aquilo era uma montanha de ossos humanos, empilhados uns sobre os outros, ainda em posição de desespero, súplica e sufocamento. Era uma visão proibida. Ninguém que subia até a superfície tinha coragem de olhar para lá, e só de resvalar o olhar por acidente, já faria o observador dormir mal por uma semana inteira.

Mayara não desviava o olhar. Ela sempre observava. Tentava distinguir trapos de roupas, tamanhos, formas, se os ossos estavam quebrados ou inteiros. Buscava alguma pista que pudesse contar pra ela um mínimo da história do mundo que passou. Ela sabia do perigo, mas sua curiosidade era maior. Ela tinha uma necessidade física de saber. “Porque aquelas pessoas morreram ali, porque não deixaram que elas entrassem nos túneis?”.

De repente, as nuvens pareceram se mexer, e um facho de luz amarela surgiu de dentro delas. Naquele exato momento, o alto falante de seus uniformes estourou em seus ouvidos, com o soldado gritando:

— Mexam-se, ratazanas! Temos que descer agora! Descer já! Parem de usar a cinta e só desçam, isso é uma ordem!

As três, após outro susto, começaram a descer o mais rápido que podiam. Mayara estava em fúria, à beira das lágrimas. A Lâmpada no Céu não estava estragada. Ela ainda funcionava! Ela podia ver ainda mais formas, cores, movimentos na cidade morta, mas era obrigada pelos cães da igreja a descer correndo! Era a chance de sua vida, e ela passaria correndo por ela por medo de ser deixada para trás, ou de tomar uma bala no rosto.

A pressa, artifício último dos desesperados, é inimiga mortal e declarada da perfeição.

Manu erra um degrau, seu dedão escorrega e a desequilibra, sua mão agarrando o ar e a deixando suspensa. Num pequeno momento de flutuação, ela ainda tenta prender o gancho no degrau, rápida em seus reflexos, mas não é o suficiente, e ela cai. Em seus últimos cálculos, ela sabe que tinha apenas mais três segundos de vida. Contar o tempo era sua especialidade. Ela cai reta, de maneira que suas pernas serão as primeiras partes de seu corpo a tocar o chão antes que tudo se torne uma bagunça de ossos e carne. Ela consegue olhar para o lado e encontra o olhar de Mayara, em uma linha completamente reta. Suas íris se encontram e por um milésimo de segundo existe apenas a escuridão do olhar delas. Manu passa então, seguindo seu caminho para o abismo.

O que ela não esperava era ver Mayara se soltando do degrau, parando exatamente um degrau abaixo, tendo tempo suficiente para agarrar sua mão direita. Seu ombro faz um barulho engraçado, e ela grita de dor, mas hey, ela parou de cair! Seu corpo balança, como se fosse um pêndulo de graciosidade e juventude, e, de maneira involuntária, seus joelhos encontram, um após o outro, o rosto de sua amiga de infância, Fabi, que é arremessada da escada em um arco. Sua queda, as três sabiam, levaria apenas um segundo e meio. E ao concretizar a expectativa, um segundo e meio depois, Fabi aterrissa em cima de um dos soldados. Seu peso fica todo sobre seu braço direito, que se quebra em várias partes. As amigas de infância, quebrando o mesmo braço quase ao mesmo tempo, nessas coincidências engraçadas da vida. Manu se divide entre agradecer Mayara e correr para atender Fabi, mas logo elas já estão recebendo empurrões e chutes dos soldados para que se levantassem e corressem para o túnel. Manu e Fabi mal conseguem andar de tanta dor, e Mayara está em choque. Ela ainda podia sentir o peso da garota em sua mão devido a força que teve de fazer para não ser puxada para o chão junto com ela, imaginando como seria fraturar um osso.

Os outros trabalhadores chegaram escoltados pela outra dupla de soldados, aos gritos, e ajudaram as garotas feridas a caminhar. A luz amarela da lâmpada no céu começava a cortar as nuvens, e era possível ver alguns pontos azuis surgindo. Os soldados estavam apavorados, quase correndo na frente e deixando a equipe de manutenção para trás. Chegando no túnel, eles abriram a escotilha correndo, jogaram as ferramentas mais pesadas buraco abaixo, colocaram as garotas feridas no elevador de carga, e fizeram todos entrarem no túnel. Somente quando o alçapão foi fechado e lacrado, um dos soldados mandou eles descerem com calma para que mais ninguém caísse, enquanto eles levaram as duas feridas para baixo. Eles não ficaram vigiando na descida, afinal, não tinha caminho para nenhum lugar a não ser para baixo.

Tomando cuidado a cada passo, Mayara estava tentando assimilar tudo que aconteceu naquela saída. As paisagens que viu, as cores da cidade sob a luz da lâmpada. Ela queria ver de novo. E também se lembrou do olhar de terror de Manu, do corpo de Fabi caindo, do barulho dos braços das garotas, ao deslocar e ao quebrar, dos gritos dos párocos. Isso, ela gostaria de não lembrar nunca mais.

Quando chegaram ao chão, as garotas machucadas já haviam sido levadas dali. Os outros trabalhadores perguntaram para Mayara o que havia acontecido. Ela explicou como pôde e logo eles foram conduzidos até a carriola para começar o caminho de volta. O retorno aconteceu em silêncio, todos de cabeça baixa, evitando até mesmo observar a vida agitada das estações. Chegando ao ponto final, a garota pegou seu dinheiro extra, assinou um papel e foi para sua toca, caminhando devagar, sentindo o peso do dinheiro em seu bolso. Todos os seus planos de gastar aquele dinheiro tinham desaparecido de sua mente. Ela não tinha vontade de fazer nada, só queria dormir.

Chegando em sua toca, Julinha estava na porta, esperando com um saco de lanche e um suco de aparência suspeita. Mayara a abraçou longamente, e depois entraram, para esquecer aquele dia aterrorizante.

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