Capítulo 3 – A Batalha de Sandro

Na sede dos caçadores, Kaluanã se reuniu com as lideranças dos Pelotões
de Caçadores de Sinistros, juntamente com outros líderes de outros grupos militares de Cambará. Cerca de trinta pessoas estavam reunidas no Quartel principal da cidade. Passo Bonito tinha uma das maiores forças de combate a Sinistros devido a sua proximidade com a chamada Zona Sinistra, um nome não muito criativo para a parte da Nação que mais tinha Usinas abandonadas e locais de bombardeamento dos Antigos, heranças venenosas de uma era que passou a muito tempo, mas que até hoje morde as bordas do presente com suas presas infectadas. Ali era onde os Caçadores tinham que ficar mais atentos e prontos para agir ao primeiro sinal de problemas. Antes da reunião, ele contou para uma de suas principais aliadas a informação que Sandro havia trazido sobre os bandeirantes.

— Eu não sabia que a situação andava dessa forma Kalu — disse Kaya, uma harpia’i responsável por um dos grupos de assalto dos Caçadores. Ela era uma veterana, uma das poucas autorizadas a usar o uniforme branco dos vasculhadores. Seu braço direito era mecânico, e seu corpo trazia marcas de muitos combates – Vou conversar com o Zé, a gente precisa aumentar as patrulhas na direção de Jacarandá.

Zezinho, Zé ou José Índigo era um Arara’i enorme com mais de dois metros, que eventualmente acompanhava Kaya em suas missões. A própria Kaya chegava aos dois metros também, suas asas brancas e poderosas se dobrando com dificuldade no espaço da sala. A maioria dos sherat’i que comandava equipes de Caçadores eram guara’i, onça’i, e outras espécies com caninos ou bico afiados, apesar de não ser uma regra, e três delas eram lideradas por primogênitos. A sala era ampla para comportar asas, galhadas e caudas sem que as pessoas ficassem se batendo. No centro, uma mesa redonda enorme com o símbolo de Cambará pintado nela. Durante toda aquela manhã e começo da tarde, o conselho tirou delegados e posições para serem levados ao Palmares regional que aconteceria em breve. As forças de defesa de Cambará eram formadas por voluntários, cidadãos do povo comum. Todos trabalhavam no Grande Campo ou em outras obras necessárias para a manutenção da cidade, e atuavam na defesa como uma atividade secundária.

Durante a reunião, foram apresentados relatórios de ações contra os Filhos
de Geiger, foram lidos relatos de outras regiões da Nação, com especial atenção às atividades dos Invasores do Norte e dos Bandeirantes de Santa Cova. Nesse momento, Kaluanã expôs os casos de avanços dos Bandeirantes e propôs que eles fossem incluídos em um nível de perigo equivalente ao dos Filhos de Geiger, posição aprovada por quase todos ali. Até mesmo aqueles que não votaram a favor se mostraram preocupados com a situação, mas temiam que desviar recursos e tropas para combater um inimigo pequeno e desconhecido pudesse fazer com que o real inimigo se fortalecesse. A decisão tomada era de que as patrulhas que procuravam movimentação dos Geiger deveriam ficar atentos a sinais que fujam aos padrões deles e investigá-los prontamente. Houveram discordâncias sobre como agir em relação aos Bandeirantes, pois sua forma de atuação era pouco conhecida ainda. A decisão foi tomada e seria defendida no Palmares, com propostas sendo apresentadas para aprovação de todos.


Sandro não participava desse tipo de reunião. Ele recusou várias vezes
promoções dentro da hierarquia dos Caçadores, pois queria permanecer um combatente, bem longe da burocracia. Ao mesmo tempo, ele sentia um pouco de inveja de seu primo, sempre a pessoa a tomar as decisões pelo pelotão.Tão logo esse pensamento vinha, ele tratava de colocá-lo de lado, lembrando a si mesmo que foi ele quem recusou a chance de estar nessa posição.

Ele estava sozinho num veículo de motor solar avançando pelas estradas,
procurando qualquer coisa, qualquer sinal que o desse alguma coisa pra fazer. Sua cabeça girava em torno da questão dos Bandeirantes. Ele ouviu muitas histórias sobre eles, sobre como eles surgiam do nada, raptavam pessoas, principalmente crianças, e sumiam novamente. Algo em sua mente o incomodava, como se fosse uma minúscula pedra no calçado. Ela fica ali, incomodando, você quase se acostuma, mas ela segue se fazendo lembrar. Dá mais trabalho tirar o calçado e se livrar da pedra do que continuar suportando o incômodo.

Não era nada, pensava ele.

Enquanto dirigia, viu ao longe, dentro da parte de mata densa na beira da
rodovia, uma fumaça muito preta e volumosa. Não era fogueira de algum tropeiro ou pantaneiro, era algo realmente grande queimando. Virando o volante, seu veículo de rodas altas adentra no mato, saindo da estrada. Enquanto entrava, Sandro emitiu um código de pedido cautelar de suporte.

Ele se aproximou com cuidado. Parou o veículo na borda da mata e desceu.
Levou consigo apenas um facão, comunicador e um par de pistolas com pentes extras. Sentia como se estivesse entrando deliberadamente em uma armadilha, mas ele precisava verificar, era seu dever, afinal. Sozinho, ele resmunga. Queria estar com seu fuzil.

Ao se aproximar, Sandro percebe sinais de batalha. Pedaços de roupas roxas e maltrapilhas, sangue, galhos quebrados. Mais perto da clareira ele vê os primeiros corpos. Filhos de Geiger. As marcas de seu culto maldito não deixavam dúvidas. Vários corpos deles espalhados ao redor da clareira, alguns com membros a mais do que deveriam, outros com corpos disformes, mas a maioria apenas muito magros e pálidos, com armas rudimentares e enferrujadas. A maior parte eram sherat’i, espécies variadas, mas havia também um número expressivo de primogênitos.
Alguns sinistros de menor porte também estavam caídos, suas formas impossíveis de identificar. Ao todo, numa conta rápida, achava que eram cerca de trinta corpos, caídos no chão com pequenos buracos de onde o sangue escorria. Sandro estranhou os pequenos furos.

Se aproximando mais ele vê a origem das chamas. No centro da clareira, um acampamento militar ardia, e ele então percebe que em meio aos mortos haviam vários soldados com um tipo de roupa diferente. Um padrão escuro, com placas largas e panos longos, em diferentes tons de cinza, marrom e preto. Entre eles, alguns vestiam mantos muito longos. Todos eram primogênitos, estavam armados com armas de fogo muito antiquadas, vestiam coletes, capacetes e máscaras. “Bandeirantes!” pensou Sandro, sentindo um calafrio. Era a primeira vez que ele os via pessoalmente. Eram cerca de seis corpos. A diferença em números dava a ele um panorama do desenrolar do combate.

De repente, ele ouve vozes.

Sandro desaparece para trás de algumas caixas e observa. Quatro
bandeirantes ainda estavam vivos, um deles usava um manto com capuz cheio de símbolos. Era bem diferente dos radiosacerdotes dos Filhos de Geiger. Esse que estava com o manto deu ordens para os outros três, que Sandro não conseguiu ouvir bem. Um deles entrou na maior tenda e o guara’i ouviu quatro disparos. Os outros estavam tirando mantimentos das barracas em chamas e tentando apagar o fogo. O líder apenas observava, sangue escorrendo de sua perna direita.

O Caçador de Sinistros estava diante de inimigos que não conhecia. Que só
tinha ouvido falar. E isso o deixava nervoso. Ele deveria ir embora, esperar por reforços. Ele saiu de trás das caixas e se esgueirou para observar. Ele viu que, pelos rastros, foram os Geiger que os atacaram, vindos da mata, enquanto o acampamento bandeirante tinha sinais de já estar ali há bastante tempo. Os Geiger provavelmente estavam procurando rotas no território próximo de Passo Bonito e os encontraram, talvez por acaso, ou talvez seguindo rastros no intuito de roubar recursos. Eles então devem ter prontamente aberto fogo contra eles. “Uma pena que alguns tenham sobrevivido”, pensou ele. Uma guerra entre os Bandeirantes e os Geiger seria um sonho tornado realidade.

Indo por trás das barracas e desviando dos olhares dos invasores, Sandro
adentrou na maior delas, de onde vieram os tiros anteriormente. Lá dentro, sentiu seu coração parar ao ver uma dúzia de crianças sherat’i mortas. Algumas já estavam assim há um bom tempo, com tubos, agulhas e outras coisas enfiadas em sua pele, mas quatro delas pareciam ter sido mortas recentemente, o sangue ainda escorrendo.

Sandro apertou seu peito. Seu coração pulou uma batida e uma dor se espalhou de seu esterno para todo o tronco. Fúria tomou conta de sua mente. Ele olhava as crianças com atenção, aterrorizado, esperando não reconhecer nenhuma delas. Absorto, ele não percebeu que estava rosnando e mostrando os dentes em uma carranca de ódio. Um dos soldados ouviu algo, entrou na barraca e deu um grito ao vê-lo lá dentro. Ele saiu correndo e gritando “Monstro! Tem um adulto aqui! Te”..

Ele jamais terminaria a frase, pois um projtétil de combuscarga havia entrado por sua nuca e separado a parte superior de seu crânio do restante do corpo, derrubando-o do lado de fora. Sandro ouviu uma voz gritar “Fogo!” e correu para fora e para a direita, enquanto um barulho ensurdecedor de disparos toma conta do ar e a barraca é reduzida a trapos. Ele é rápido, se movendo como um raio, correndo para flanquear os soldados. Ao olhar, os Bandeirantes vêem um Sherat’i que não era nem doente, nem criança, diante deles com duas pistolas brilhantes vomitando projéteis em sua direção. O líder deles também é rápido e se joga no chão para trás de outras caixas perto dele. Flores de fogo abrem buracos nos
corpos dos soldados que estavam ajoelhados ou em pé, mirando suas armas na direção de Sandro. Enquanto rolava, o líder dos Bandeirantes atingiu uma bala no ombro direito dele, e outra na pistola direita, destruindo sua arma, mas ele já tinha disparado contra os invasores. Sandro então avança, puxando seu facão da bainha, e quando o líder se preparava para mirar por cima da caixa, a sombra do Guará’i obscurece sua visão. “Aberração” grita o bandeirante, num misto de medo e nojo, tentando mirar sua arma, mas o Caçador é mais rápido e o facão atinge o homem no pescoço, encerrando seu tempo na superfície.

Após o combate, Sandro entra em um estado de torpor, uma espécie de
modo automático. Ele apaga o fogo e começa a preparar o acampamento para a extração. Quando a equipe de apoio chega, ele já tinha organizado os corpos e preparado-os para serem levados dali. Ele só sairia desse estado de choque muito mais tarde, no banho, onde as lágrimas se confundiriam com a água e seus gritos seriam abafados na banheira.


Na manhã seguinte, o Palmares Regional se desenrolava. As primeiras horas da manhã foram dedicadas a registrar os participantes, organizar a ordem de apresentação e tratar de assuntos de infra-estrutura. Estradas tinham que ser construídas, escolas reformadas, trocas de suprimentos efetuadas. Os delegados dos Caçadores, dois irmãos Cachorro’i, estavam aptos a votar nestes assuntos também, participando ativamente das decisões da grande cidade. Estavam lá representantes dos agricultores, dos carpinteiros, dos trabalhadores do transporte, da educação, da infra estrutura, da saúde, enfim, de todas as esferas da vida pública de Passo Bonito, além de representantes das outras cidades de Cambará. Presidindo a sessão estava Paulo, um quati’i que ora parecia entediado, ora parecia estar conduzindo as discussões para onde ele queria. Por sorte, seu poder como presidente de mesa era limitado.

Ficava patente a vontade de todos ali em orientar a reunião para o que seria a decisão que mais beneficiaria o povo, mas divergências eram comuns. Fosse sobre quais alimentos deveriam ser produzidos, fosse sobre qual obra deveria ter prioridade, sobre deslocar recursos de uma parte do território para outra sem deixar de atender tais necessidades. Era relativamente organizado, mas bate-bocas aconteciam com alguma frequência.

No início da tarde era a vez dos assuntos de segurança. Kaluanã estava
assistindo. Relatórios apresentados, argumentos definidos, e os elementos de discussão foram quase os mesmos da outra reunião. Ele estava quase dormindo quando um bate-boca se iniciou entre o presidente da mesa, Paulo, e um dos delegados de seu grupo:

– Pois ouça bem, que bem trará para nossa comunidade gastar recursos e
tempo caçando fantasmas e tentando capturar ventanias! Os Geiger adentram nossas plantações todos os dias, destroem máquinas, jogam suas criaturas sobre nós, não vejo de que maneira deveríamos sequer considerar mudar a maneira como defendemos nosso território! – disse o pequeno quati’i, parecendo realmente ofendido pela possibilidade de ter seus planos, quaisquer que fossem, mudados pela assembleia. Kaluanã detestava Paulo.

A porta então se abre com força, batendo contra a parede e pegando todos de surpresa.

— Pois eu te dou um motivo! – disse Sandro, adentrando a reunião.

Todas as cabeças se viraram em sua direção. Kaluanã viu seu primo entrar na sala carregando um corpo uniformizado e jogá-lo no balcão da mesa organizadora, na frente de Paulo e dos outros condutores da reunião. Atrás de seu primo, toda sua equipe e alguns membros de outras equipes entraram carregando carrinhos que traziam caixas de madeira decoradas com flores. Kaluanã reconheceu Terena, o primogênito Pedro, e Abaeté, carregando um pesado carrinho com ajuda de seus braços mecânicos. Seu coração afundou.

Algumas pessoas se levantaram, e sons de surpresa e horror começaram a ser ouvidos. A mesa gritava pedindo ordem enquanto a balbúrdia se espalhava. Paulo subiu na mesa e pediu que os seguranças tirassem aquelas pessoas dali, e um empurra-empurra se desenrolou por todo o salão. Uma cacofonia de vozes se espalhou até ser silenciada por um grito de “NÃÃÃÃÃO!” que sobrepujou todos os sons enquanto uma representante dos metalúrgicos Anta’i correu até um dos carrinhos e caiu num choro desesperado ao reconhecer um dos corpos, de uma das crianças. Nesse ponto, a reunião havia acabado. Pessoas se acusavam, outras choravam, outras conversavam aos sussurros. Membros do corpo científico começaram a analisar o corpo do bandeirante sobre a mesa, já tomando notas e analisando. Sandro bradava a plenos pulmões que ele não deixaria a situação daquele jeito, e trocou alguns socos com os seguranças do Palmares que tentavam controlar o tumulto.

Kaluanã foi o único a continuar sentado, observando do alto a movimentação, vendo seu primo quase acertar um copo em Paulo. Ele suspirou, pressentindo o que viria pela frente. Sua tristeza se desdobrou em propósito. Era hora de trabalhar.

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