Mayara caminhava pelos túneis de Santa Cova como se caminhasse pela
praia, leve e despreocupada. Com a diferença de que ela conhecia apenas a palavra, mas não fazia ideia do que era uma “praia”, e a leveza dela vinha na confiança em suas roupas completamente fechadas, sua máscara de gás e seu par de botas para se proteger dos líquidos e vapores que existiam em todo canto. Ao contrário da ideia de praia, ela não estava usando roupas frescas, nem molhando os pés no mar. O lugar onde ela vivia não se parecia nada com isso, era exatamente o contrário de qualquer coisa nesse sentido. Mas hoje ela estava mais contente. Para ela, essa era uma boa manhã, o sagrado momento da saída do trabalho.
Ela caminhava cantarolando em sua mente músicas que não lembrava de ter aprendido, músicas que ouvia aos sussurros, pelos cantos da colméia humana. Desviava das pessoas enquanto passava, vindo direto de um dos mercados favoritos dela. Vendedores gritavam promoções a todo momento, propagandas de neon iluminavam o caminho semi escuro da maioria dos túneis, serviços eram oferecidos em cada esquina, com os prestadores disputando espaço com os guardas da Baixa Paróquia, odores fétidos de esgoto misturados a aromas incríveis de alimentos sendo preparados, desempregados morando em filas de empregos das sucursais das mega-empresas, mas ela passava incólume. Estava salivando só de pensar no purê de gafanhotos que faria para o jantar. Ela desviava, saltitava e ia imaginando golpes de faca no pescoço dos muitos guardas que claramente se incomodavam com a alegria da garota, com seus bastões elétricos na cintura, suas boinas cobrindo a cabeça, seu olhar apagado.
Por todo o lado, para qualquer lugar que alguém olhasse, havia relógios.
Normalmente, ela não se sentia assim, mas ela finalmente havia conseguido gafanhotos! Ressecados e limpos, não moídos nem desidratados, inteiros! Estava triste que a Julinha estaria no Mundo Morto trabalhando naquela noite e não poderia dividir a refeição com ela. Se ela guardasse, ia estragar, então teria de comer tudo sozinha. No máximo, jogar uma perninha para seu rato, Lixo, participar da ceia. Ela tinha 8 horas para comer, dormir, e organizar sua toca antes de mais um turno de 14 horas trabalhando para a Luminosil, uma empresa diretamente ligada ao Presbitério da Luz.
Ela era uma garota comum. Tão comum quanto uma garota de sua idade
poderia ser vivendo onde ela vivia. Sua pele escura e seu cabelo cacheado eram injustamente cobertos por todo o seu aparato de proteção, mas era necessário.
Santa Cova era um ninho de pessoas se aglomerando pelos cantos, túneis e
vielas subterrâneas do que um dia já foi, segundo diziam, a maior cidade de todo o continente. “Continente” era outra palavra que não significava nada para ela. Ela leu isso em papéis antigos e tomos perdidos que sobreviveram ao tempo desde a época da Grande Morte, há muito tempo atrás. Ela sabia que sua idade era uns 20 anos, mais ou menos, e que a Grande Morte aconteceu há uns mil. “Anos” era uma palavra usada para contar o tempo entre um inverno e outro. “Inverno”, por sua vez, era como eles sabiam que por vários dias seguidos um frio congelante tomaria conta dos túneis e eles teriam que usar ainda mais roupas para se proteger, e quando chegava o próximo inverno, as pessoas sabiam que o ano havia passado. Escondidos dos guardas, algumas pessoas festejavam esse momento. Fora dessa época, Santa Cova era um caldeirão de ar parado, umidade e calor.
Ela pulava por cima de pessoas ainda mais miseráveis que ela no caminho
de casa, caídos pelas calçadas pedindo esmolas ou comida, e ia jogando
furtivamente moedas em seus chapéus, além de desviar de canos, placas e outras estruturas que poderiam atingir sua cabeça. Depois de uns vinte minutos, ela chega a sua toca, onde passaria horas preciosas. Era um quarto conjugado, de uns 10 metros quadrados, onde todas as suas poucas coisas se amontoavam. Tinha um banheiro com um chuveiro gelado e um buraco no chão para outras coisas, e o resto do lugar era um único cômodo.
“Horas”, esta sim, uma palavra muito conhecida, um conceito muito bem
entendido. Sua vida girava em torno delas, as horas. Ela levava cerca de uma hora para chegar em seu posto de trabalho, e um pouco menos para voltar. Isso deixava ela com quase oito delas livres. Destas, ela precisava dormir quatro, pelo menos. Suas últimas horas restantes eram seu paraíso.
A Igreja da Retidão não deixava ninguém esquecer das horas. Relógios
estavam espalhados pelos túneis, e todos recebiam uma versão pequena para usar no pulso. Era perigoso andar nas ruas sem usar um relógio. Algumas empresas criavam novos tipos de relógio, que brilhavam no escuro, que tinham outros apetrechos como isqueiros ou lâminas, outros que tinham intrincados mecanismos de ponteiros, mas todos serviam ao mesmo propósito de não deixar as pessoas esquecerem quem elas eram, e a quem elas pertenciam.
A primeira coisa que fez, portanto, ao chegar em sua toca foi arrancar o
maldito relógio de pulso e arremessar contra uma pilha de roupas com toda força. A vontade dela era jogar na parede, mas se ela o quebrasse, teria problemas.
Ela leu, se alongou, brincou com Lixo, apesar de achá-lo estranho, pois pelo
que lembrava o rato dela não tinha aquela mancha branca nas costas. Fez seu prato de gafanhotos, lavou suas roupas e tomou banho. Quando o sono chegou, ela se sentiu triste. Queria ter mais tempo para viver, fora do trabalho, mas se não fosse trabalhar, não teria dinheiro para comprar comida. A vida era assim, afinal. “Fazer o quê?”, pensava ela.
Para Mayara, não havia nada a ser feito.
O trabalho na fábrica era relativamente fácil. Eram treze horas apertando
parafusos, rosqueando porcas, esticando fiações. Mayara não sabia para que servia a atividade que desempenhava, ela só sabia que funcionava. Para ela era quase como um ritual mágico. Ela passava quatorze horas na empresa fazendo coisas sem sentido, e por causa disso, a cidade tinha luz elétrica. Ela não pensava muito sobre isso. Ela só fazia o que mandavam.
Seis grandes conglomerados empresariais dominavam toda Santa Cova.
Controladas pelas seis Famílias do Paraíso, estas empresas se ramificavam como polvos em seus tentáculos, se espalhando por todo lado nos túneis. Elas respondiam indiretamente à Igreja da Retidão, que fazia o papel de manter as coisas sob controle. Porém, grandes nomes das principais famílias tinham cargos de importância na Igreja, então os limites entre uma e outra se confundiam a todo momento.
Ela percebia que alguns de seus colegas na linha de trabalho se irritavam
com a rotina. Faziam o trabalho com menos velocidade, ou ficavam reclamando dos capatazes. Ela também percebia que esses reclamões sumiam depois de algum tempo, provavelmente demitidos, era o que ela achava. “Tolos”, ela pensava. Das milhares de empresas que faziam os produtos que eles usavam para sobreviver, a Luminosil era uma das menos piores para trabalhar. “Eles deviam ficar quietos e agradecer”, ela pensava. No fundo, ela concordava com eles, e às vezes se sentia covarde por não reclamar também.
Durante o trabalho, eles tinham uma hora de intervalo, para comer e descansar. Ela era ligeira, especialista em pegar mais de um gafanhoto ou pedaço de frango sem ninguém ver. Às vezes, ela guardava um no bolso para barganhar nas ruas, fora da grande fábrica. Comia correndo em dez ou quinze minutos, para poder ficar parada o restante do tempo. Dormia sentada mesmo, com a cabeça abaixada sobre os braços na mesa. Não havia espaços para deitar. Havia, no entanto, uma sala com alguns jogos estranhos, bolas e outras coisas para quem quisesse se distrair no tempo livre. Mayara só queria dormir. Quanto mais tempo dormindo no trabalho, menos tempo teria que dormir quando saísse dali. Acabado o intervalo, ela voltava para a linha de produção. E essa era a rotina de Mayara, todo dia. Todo dia.
Todo dia.
Todo dia.
Todo dia.
Todo dia.
Todo dia.
Ela sabia que seria assim a vida toda, até que ela chegasse por volta dos
seus trinta e quatro ou trinta e cinco anos, quando provavelmente morreria. Ela era cobrada mensalmente pelo Diaconato da Correção por não ter tido filho nenhum, algo esperado de alguém na sua idade. Ela não queria colocar mais alguém para sofrer naquele mundo. Ela sabia que eles só queriam que continuasse tendo gente para trabalhar, nada a ver com a tal missão sagrada que tanto falavam. Mas tudo bem se ela não tivesse, o que não faltavam eram pessoas em Santa Cova. Ela não era obrigada a engravidar, mesmo que tudo ao redor dela incentivasse ela a isso, fossem as propagandas da própria Igreja incentivando a concepção, fosse o modo
de vida que as pessoas levavam, encontrando conforto fugaz uns nos outros e em festas clandestinas. Ela não queria isso. Essa decisão era também uma maneira de desafiar, pelo menos um pouco, esse mundo estragado que vivia. Ela sabia que não devia pensar assim, mas às vezes era inevitável. A Igreja salvou a todos na época da Grande Morte, e tudo na superfície estava morto, destruído, a doença espreitando a cada canto. Então ela tentava ser grata, na maior parte do tempo.
Certo dia, Julinha se aproximou de Mayara com um sorriso no rosto, com sua bandeja do almoço nas mãos.
— Adivinha o que eu trouxe pra você.. – Julinha era mais nova do que ela,
talvez um ano a menos. Ela tinha sua altura, pele cor de bronze e cabelos lisos e escuros. Linda, segundo o julgamento de Mayara. As duas tinham uma amizade que flutuava entre companheirismo e namoro. Era difícil construir relações em Santa Cova.
— Deixa eu pensar.. alguma bugiganga sem sentido da superfície que a
gente não faz idéia pra que serve? Sério, Julia, eles ainda vão te prender por pegar essas bobagens.
— Nada disso! Eu peguei depois de descer do catavento, quando os soldados não estavam olhando. Saca só!
Ela entregou para Mayara uma folha dobrada e claramente se desfazendo.
Era papel, do povo de antes da queda, mas era diferente do papel que elas tinham em Santa Cova. Era fino, parecia plástico. Estava brilhando, ainda que parecesse frágil. Mayara sabia ler um pouco da Antiga Língua. Parecia ser propaganda de algum tipo de luminária inteligente que falava com a pessoa. Ela riu com a ideia de alguém conversando com uma lâmpada. A marca da empresa deu calafrios nela.
— Olha, o símbolo parece o da Luminosil! – disse Mayara.
— Deixa eu ver! Não tinha percebido — disse Julinha, impressionada, desmontando seu sorriso aos poucos, caindo em um silêncio estranho.
Mayara a acompanhou em sua quietude. Pensar na possibilidade de que a
fábrica onde elas trabalhavam existia há tanto tempo colocou sobre elas um peso esmagador. Era a certeza de que nada iria mudar, nunca, para elas.
A rotina de Mayara só era quebrada quando surgia a necessidade de
consertar geradores eólicos e outras máquinas na superfície do Mundo Morto. Esse trabalho surgia raramente, mas quando surgia, um grupo era selecionado para ir até lá, subir em torres gigantescas com hélices igualmente gigantes e consertar o que quer que tivesse acontecido. Era perigoso, mas era a única chance que as pessoas tinham de ver algo além da realidade dos túneis intermináveis de Santa Cova. Pelo menos, de maneira autorizada, dentro da lei da Igreja.
Uma vez, ela entrou em uma fila achando que era distribuição de comida, quando na realidade era para um curso sobre como consertar geradores. Por causa disso, ela aprendeu essa função e já tinha ido duas vezes ao mundo de cima, observado as ruínas e as construções dos antigos humanos que se erguiam como dedos de uma mão tentando alcançar os céus. Era terrível e magnífico ao mesmo tempo. Ela nunca viu nenhum dos monstros que tanto falavam. Ela gostaria de ver um.
Então um dia, enquanto Mayara trabalhava, um inspetor do Presbitério se
aproximou de sua linha de montagem, seguido por dois guardas.
— Atenção, atenção! Sete vagas para comissão de manutenção superficial!
Sete! Apresentem-se, já!
Mayara pulou no seu lugar, erguendo uma das mãos sem parar de fazer seu
trabalho. A chance de subir ao Mundo Caído havia chegado mais uma vez.
— Qual seu nome?
— Mayara, senhor!
— Mayara do que?
— Mayara, só — ela não teve a sorte de ter um sobrenome.
O inspetor a olha de cima embaixo, calculando suas capacidades físicas.
— Quantas vezes já subiu? – perguntou ele, anotando com um lápis. Os
guardas ao seu lado, imóveis.
— Duas! Fiz o treinamento de escalada e de manutenção pendurada! Já faz
cinco meses que subi!
Os trabalhadores tinham que esperar pelo menos quatro meses entre uma subida e outra. A Igreja dizia que era para sua proteção, e para ter certeza que a pessoa não tinha voltado infectada ou doente de alguma maneira. Ela sempre quis subir com a Julinha, mas nunca conseguiu, seus prazos nunca bateram. Ela estava empolgada, de toda forma.
— Certo, amanhã vá direto ao posto de controle. Próximo!
O inspetor e os guardas saíram pegando nomes, e Mayara torceu para não
acontecer nenhum incidente enquanto estavam ali. Com os soldados do Diaconato, sempre era um suspense enorme, o risco de problemas era muito alto.
Dito e feito. Um jovem que havia começado a pouco tempo ergueu as duas
mãos quando pulou para mostrar sua vontade de subir, ao que prontamente um dos guardas sacou um chicote enorme e abriu um rasgo no peito do rapaz, enquanto o outro guarda, muito alto, mais do que o normal, avançou contra ele, derrubando e chutando sem parar seu corpo enquanto gritava “Não pare de trabalhar! Nunca! Vagabundo!”. Mayara já tinha visto muito disso, mas os guardas da Baixa Paróquia não costumavam ser assim. Esses novos caras eram diferentes. Essa violência era demais, até mesmo para os padrões da Luminosil. Ninguém olhava. Ninguém interferia. Ela cerrou a mandíbula e fechou os olhos, confiando em seu tato para fazer sua função enquanto pensava o mais alto que podia “não é da minha conta, não é da minha conta”, tentando ignorar o som dos golpes e os gritos do garoto.
— Levem esse lixo para a enfermaria, ele tem uma hora para voltar para a
linha senão está fora. Três vagas para a subida! Rápido, malditos!
Dois outros guardas que surgiram do nada carregaram o garoto desacordado para a “enfermaria”, que nada mais era que uma sala com cadeiras onde seria injetado nele uma substância para que ele acordasse e ignorasse a dor. Mayara ficou todo o turno com a mandíbula travada e as mãos tremendo, sentindo culpa pela empolgação com o trabalho que viria no dia seguinte.


